A Exortação Apostólica Dilexi Te, promulgada no início do pontificado do Papa Leão XIV, mas concebida e preparada nos últimos meses de vida do amado Papa Francisco, surge como um vigoroso testemunho de continuidade magistral. O título da Exortação e o seu tema central inspiram-se na promessa do Apocalipse dirigida a uma comunidade vulnerável e marginalizada: «Eu te amei» (Ap 3, 9). Este amor, que evoca o cântico de Maria exaltando os humildes e saciando os famintos, é a matriz que liga a nova obra à Encíclica Dilexit nos. Naquela carta, o Papa Francisco aprofundava o mistério insondável do Coração de Jesus, que Se identifica plenamente com os últimos da sociedade, os sofredores e os mais frágeis, revelando neles a dignidade inalienável da pessoa humana. Assim, o cuidado da Igreja com os pobres não é um adendo opcional, mas a própria essência de um caminho de santificação. É no coração dos desamparados que as opções mais profundas de Cristo Se revelam, e configurar-se a Ele implica inexoravelmente tornar-se próximo deles.
A Exortação avança recordando um episódio evangélico emblemático: a unção em Betânia. Quando os discípulos criticaram a mulher por desperdiçar um perfume caríssimo que poderia ser vendido para dar aos pobres, Jesus defendeu-a, afirmando: «Pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26, 11). Ele compreendeu que a unção era um pequeno e profundo gesto de consolo diante de Seu iminente sofrimento na cruz. Jesus confirmou o valor daquele ato de carinho, indicando que nenhuma expressão de afeto aos sofredores e marginalizados cai no esquecimento. Ao mesmo tempo, quando Cristo afirma que os pobres sempre estarão entre nós, Ele eleva essa presença ao patamar da Revelação: a convivência e o socorro aos desprovidos de poder são o modo fundamental de encontro com o Senhor da história. A afirmação "a mim mesmo o fizestes" insere o serviço aos pequenos no coração da teologia cristã.
O texto prossegue ancorando-se no testemunho dos santos. Evoca a eleição do próprio Papa Francisco, quando lhe pediram "Não te esqueças dos pobres", assim como a instrução das autoridades de Jerusalém a São Paulo e, de modo eminente, a conversão de São Francisco de Assis, que renasceu após abraçar o leproso, encontrando ali o próprio Cristo. A revolução evangélica do Poverello e a orientação dada ao Concílio Vaticano II sob a figura do bom samaritano provam que a opção preferencial pelos pobres renova as sociedades e a Igreja, curando-as da autorreferencialidade.
Deus escuta o clamor dos pobres desde o Antigo Testamento, como na revelação da sarça ardente, onde promete libertar o Seu povo da opressão no Egito. A indiferença ao sofrimento alheio constitui um pecado que afasta o homem de Deus. Hoje, a pobreza não é um monolito, mas manifesta-se através de múltiplas formas de empobrecimento: material, moral, espiritual, a falta de direitos sociais, e a marginalização profunda daqueles que perdem qualquer instrumento de voz. Contudo, apesar dos esforços globais, o progresso permanece deficiente, pois a sociedade insiste em valorizar um padrão de vida excludente, centrado no sucesso a todo custo. Formam-se elites isoladas no seu luxo, mergulhadas na cultura do descarte, que apenas se comovem fugazmente perante imagens chocantes, como a de uma criança sem vida na praia, para logo regressarem à indiferença.
Finalmente, a Exortação denuncia os preconceitos ideológicos. O documento refuta asperamente a ideologia do sucesso puramente individual e da falsa meritocracia, que cruelmente culpam os pobres pela sua miséria, ignorando as condições estruturais que impedem o desenvolvimento. Milhares morrem diariamente por desnutrição, e os cristãos não devem permitir que ideologias mundanas desprezem a caridade, correndo o risco de substituir as exigências revolucionárias do Evangelho por uma adaptação covarde aos sistemas político-econômicos que oprimem os fracos. A missão apostólica exige, sem concessões, que a Igreja lute incessantemente pela justiça e pela partilha concreta, curando as antigas e novas pobrezas do nosso tempo.
O documento papal avança para os alicerces teológicos e bíblicos do compromisso social, ressaltando com absoluto vigor que a opção preferencial de Deus pelos pobres não é um adendo sociológico, mas encontra a sua profunda raiz teológica no projeto salvífico. Deus, que é amor misericordioso, demonstra a Sua divindade descendo à humanidade para libertá-la de seus medos, do pecado e do império da morte. A Sua preocupação primária com a condição humana traduz-se na assunção radical da nossa pobreza: no mistério da Encarnação, Jesus despoja-Se de toda glória para nascer numa manjedoura e, mais tarde, sofrer a humilhação extrema da cruz. Essa "opção preferencial", um conceito que amadureceu desde a Assembleia de Puebla e se integrou solidamente ao Magistério, não significa de modo algum a exclusão de outras parcelas da sociedade, mas ilustra o agir compadecido de Deus que Se dirige aos oprimidos para inaugurar um Reino alicerçado na justiça e fraternidade.
O Antigo Testamento, por intermédio dos Salmos e dos clamores proféticos de Amós e Isaías, comprova que Deus atua como o defensor incansável do necessitado. Os profetas advertiam Israel de que o culto prestado no templo seria vã hipocrisia se, simultaneamente, os mais fracos e empobrecidos fossem explorados. Toda esta longa história de predileção atinge a sua plena e irrefutável consumação em Jesus de Nazaré. Como aponta brilhantemente o Apóstolo Paulo, o Cristo rico fez-se pobre por nós, para nos enriquecer através de Sua extrema pobreza. Desde o Seu nascimento rejeitado, as sucessivas fugas para o Egito, a expulsão da sinagoga na Sua própria terra natal e, finalmente, a crucificação nos arredores marginalizados da cidade, a exclusão da sociedade perpassa todo o arco da Sua vida. Jesus apresenta-se, inequivocamente, como o Messias pobre e o Messias que opera exclusiva e decididamente em prol dos mais pobres.
A pobreza não foi para Cristo uma encenação, mas uma condição social vivida integralmente: laborou manualmente como humilde carpinteiro, a Sua família imolou no Templo a oferenda típica dos indigentes, e permitia que os Seus discípulos colhessem espigas aos sábados, atividade concedida legalmente apenas a quem estava privado de sustento. O Seu ministério consistiu em proclamar no "hoje" da história a presença curadora de Deus: deu vista aos cegos, devolveu a vida aos mortos e restituiu dignidade aos leprosos, culminando com a declaração revolucionária das Bem-aventuranças, asseverando que o Reino dos Céus pertence, prioritariamente, aos mais fragilizados.
A compaixão cristã rompeu ainda com o paradigma cruel vigente de que a indigência e a doença constituíam punições infligidas por faltas pessoais ocultas. O Sol e a chuva divina cobrem todos indistintamente, um preceito reiterado na poderosa lição sobre a reversão de fortunas ocorrida na parábola do rico egoísta e do pobre Lázaro. A autêntica fé recusa qualquer desculpa que amenize as responsabilidades com o próximo, pois as Sagradas Escrituras não dão margem a abstrações confortáveis, mas exigem compromissos palpáveis e reais.
O Evangelho constrói uma teologia indissolúvel entre o amor a Deus e a dedicação efetiva ao irmão. São João reitera que se amarmos mutuamente as nossas carências, Deus habita em nós; por seu turno, Jesus sintetiza todos os antigos mandamentos da lei de Moisés no dever inquebrantável do amor duplo. As Escrituras recordam inclusive a obrigação de resgatar o gado do nosso inimigo, pois todo ser vivente clama por dignidade. Cristo, na magnânima narrativa do Juízo Final (Mt 25), expõe o critério peremptório sobre o qual todo o crente será pesado: acolher, vestir, visitar e alimentar os pequeninos é acolher o próprio Redentor. Por fim, exortações duríssimas da Carta de São Tiago demonstram como as comunidades primitivas consideravam inútil a fé desprovida de obras caritativas e denunciavam com veemência a retenção do salário do trabalhador, confirmando que emprestar ao pobre é, de facto, investir na misericórdia e no amor imortal e inesgotável do Senhor do universo.
A Igreja reconhece a verdadeira essência da sua missão na configuração com os pobres e sofredores, vendo neles a imagem indefectível do seu fundador espoliado e humilhado. Esta clareza apostólica, reiterada pela exortação recorrente do magistério moderno que roga por «uma Igreja pobre e para os pobres», não é uma retórica contemporânea, mas o fio de ouro que perpassa quase dois milênios da história dos discípulos de Jesus. Desde a Igreja nascente, a caridade foi estruturada como pilar. Apesar de os primeiros cristãos não serem compostos majoritariamente por nobres ou sábios, possuíam a profunda convicção da necessidade urgente de amparar os desvalidos, instituindo, assim, o serviço apostólico da diaconia, como o próprio derramamento de sangue de Santo Estêvão e o imponente heroísmo de São Lourenço o comprovam de modo irrefutável. Lourenço, quando pressionado a entregar os tesouros eclesiásticos às autoridades opressoras romanas, apresentou publicamente uma multidão de mendigos, leprosos e doentes, designando-os inequivocamente como o verdadeiro e imperecível patrimônio de Cristo.
Durante os séculos subseqüentes, a tradição teológica edificou-se solidamente nesta vertente. Os Padres da Igreja consideravam o pobre como a ponte de acesso privilegiada ao Altíssimo e advertiam, com rigor pastoral, que a fé isolada de ações salvíficas concretas e de compromisso social afundava no vazio e se tornava estéril. Tanto no Oriente quanto no Ocidente, a exegese e a liturgia abraçavam este preceito: São Justino atestou como, nas assembleias dominicais, os fiéis proviam sistematicamente o sustento e o consolo das viúvas, órfãos e prisioneiros, unindo a adoração eucarística à restituição fraterna. São João Crisóstomo, com admirável coragem e veemência inigualável, sublinhava perante os cristãos de Constantinopla que de nada servia ofertar mantos recamados a ouro ao Senhor dentro do altar se, além dos umbrais do templo, Ele padecia despido e castigado pelo frio nas ruas e praças da cidade; não partilhar do excesso com o pobre constituía, na sua perspectiva, um gravíssimo furto. Ecos desta retórica combativa e compassiva ecoavam nos lábios de Santo Agostinho que, inspirado no mestre Santo Ambrósio, considerava a esmola um ato irrenunciável de justiça distributiva que purificava a alma envaidecida e reconduzia o coração à autêntica comunhão com o Verbo encarnado.
A atenção primacial da Igreja desdobrou-se ainda na invenção e multiplicação de postos de cuidado e assistência de excelência: no zelo fervoroso e heroico dispensado durante pestilências por Bispos como São Cipriano, bem como na construção de redes hospitalares inovadoras promovidas incansavelmente por ordens dedicadas como os Camilianos e as Filhas da Caridade. Simultaneamente, o fenômeno espetacular da vida monástica comprovou que a fuga ao mundo não correspondia a um escapismo insensível, mas a um despojamento solidário inabalável. Mosteiros estabelecidos sobre as vigorosas Regras de São Basílio Magno e de São Bento de Núrsia rapidamente transcenderam a condição de refúgios celibatários de adoração litúrgica para se tornarem bastiões acolhedores de abrigo, proteção intelectual e pão generoso em eras devastadas pela penúria. Os abades promoviam orfanatos, escolas agrícolas incipientes e enfermarias eficientes que revolucionaram e reestruturaram a civilização, opondo a cultura vigorosa da comunhão partilhada à nefasta letargia egoísta e excludente da mera acumulação aristocrática.
Como culminância da manifestação redentora, a Igreja, mobilizada pelas pregações escatológicas, engajou-se em resgates heróicos por meio de Ordens Redentoras como os Trinitários e Mercedários. Estes homens de profunda contemplação entregavam a própria vida e liberdade em trocas extremas, a fim de libertar as incontáveis e sofridas massas acorrentadas na escravidão. Este imperativo absoluto da Páscoa prolonga-se sem hesitação nos dias atuais, englobando a missão imperativa de quebrar os perversos grilhões das modernas opressões — do cruel tráfico de pessoas e prostituição até as desesperadoras correntes da drogadição nas masmorras e prisões que clamam pelas consolações misericordiosas do Espírito Libertador.
A irrupção da urbanização europeia a partir do século XIII trouxe consigo não só o fomento comercial desenfreado e a consolidação de cidades e capitais populosas, mas sobretudo a emergência impiedosa de novas modalidades devastadoras de indigência coletiva, agravadas pelo luxo insensível das cortes. Em contrapartida e repúdio a essa desintegração comunal progressiva, o Espírito Santo ergueu e multiplicou com fervor místico indômito o notável modelo das vigorosas Ordens Mendicantes. Estes novos itinerantes consagrados abdicaram totalmente da segurança rural dos domínios monásticos fixos. Assumindo a providência celestial como sua única retaguarda material e estratégica, figuras exponenciais e transformadoras como o sereno e exaltado São Francisco de Assis, acompanhado pela tenacidade de Santa Clara, e o incansável São Domingos de Gusmão não procuravam unicamente a mera filantropia social. Ao tornarem-se intrinsecamente e visceralmente indigentes na mais radical semelhança com as multidões exaustas, estes frades infundiam a candura viva do Evangelho libertador através da completa expropriação de posses e privilégios. Santa Clara defendeu com inabalável intransigência perante a autoridade pontifícia o insigne Privilegium Paupertatis, assegurando destarte que a liberdade contemplativa da Ordem nunca fosse obscurecida pelas falsas garantias mundanas. Simultaneamente, Domingos compreendera agudamente que a força apologética da pregação nas efervescentes cidades e aglomerações universitárias requeria com absoluta urgência a correspondência do testemunho fidedigno de austeridade contundente.
Outro setor inestimável da missão caritativa eclesial desenvolveu-se através do devotado esforço histórico perante a calamidade avassaladora da exclusão infantil nos recintos e instituições do saber e conhecimento intelectivo. Cientes e imbuídos da convicção inegociável de que a negação criminosa da instrução básica representava um cruel atentado contra as potencialidades espirituais e intelectuais incutidas pelo Criador, congregações extraordinárias fundadas por precursores revolucionários da envergadura espiritual de São José de Calasanz, do meticuloso e afável São João Batista de La Salle, do devotado São Marcelino Champagnat e, mais tarde, da genialidade juvenil transbordante e profilática do grande Dom Bosco, assumiram a vanguarda incontestável do resgate cognitivo, apostólico e profissional dos menores completamente desamparados. Com o auxílio essencial e muitas vezes anônimo de inúmeras Congregações femininas abnegadas e resilientes na labuta cotidiana — as quais alfabetizavam, evangelizavam incessantemente e cuidavam sem hesitar da reinserção humanizadora perante a orfandade —, a ação formativa católica transmutou a caridade em justiça educacional plena. Tal pedagogia estruturou-se solidamente sob os alicerces indestrutíveis do zelo irrestrito, de uma presença atenciosa ininterrupta e, mormente, da transmissão afetuosa contínua do verdadeiro consolo evangélico.
Em consonância sinérgica com a pedagogia voltada aos infantes marginalizados pela revolução burguesa, a Igreja jamais preteriu o contingente sempre crescente dos peregrinos e refugiados forçados a migrar sob as ameaças terríveis de fome iminente ou conflagrações armadas de vasto alcance letal. Tendo plena e sensível consciência de que a diáspora desintegra cruelmente os sagrados laços afetivos que definem e alicerçam a humanidade e a sã espiritualidade, figuras apostólicas titânicas tais como o vigilante e diligente São João Batista Scalabrini e a irrefreável e corajosa viajante Santa Francisca Xavier Cabrini reconheceram cristologicamente nas multidões de estrangeiros desenraizados o mesmo Menino Jesus foragido nos desertos agrestes do antigo Egito. Longe de ceder, acomodar-se e render-se perante preconceitos insensatos e correntes discriminatórias locais virulentas impulsionadas pela repulsa e pelo utilitarismo abjeto vigente nas grandes nações, os santos edificaram e organizaram hospitais formidáveis e missões integradoras. Confirmando e renovando esta visão inclusiva perene na atual era conturbada pelas transições globais vertiginosas e desequilíbrios, o ensino do altivo e denodado Papa Bento XVI e de seus proeminentes e ilustres pares reafirma perenemente que erguer muros, propagar xenofobias institucionais covardes ou repudiar apaticamente o asilo salvador das vítimas colide violentamente e diretamente com a caridade teologal incontestável de Cristo na cruz e a fraternidade substancial dos corações, esvaziando dessa forma todo e qualquer sentido salvífico universal almejado e cultivado incansavelmente pela comunidade santa espalhada pelas periferias globais amedrontadas.
A prodigiosa e elaborada reflexão consolidada da Doutrina Social da Igreja, burilada minuciosamente ao longo das tumultuosas transformações dos últimos dois séculos, sobressai inegavelmente não como um conjunto árido de tratados meramente estáticos de erudição sociológica elitista, mas como a sublime corporificação reflexiva e vivencial das exaustivas batalhas empreendidas destemidamente pelos múltiplos e pujantes movimentos apostólicos, leigos e comunidades marginalizadas esmagadas implacavelmente. Estes líderes corajosos e militantes aguerridos em nome de Cristo jamais se conformaram docilmente e resignadamente com expedientes pontuais que apenas mitigassem ligeira e fugazmente a fome ou atenuassem as fraturas e dores temporárias e intermitentes, mas confrontaram intrinsecamente e sem tergiversação as enraizadas e petrificadas premissas estruturais da iniqüidade reinante; combatendo, afinal e categoricamente, a própria matriz de perversidade institucional causadora sistêmica dos horrores desumanizadores da exploração indiscriminada. Com imponente clarividência atemporal e sensibilidade pastoral irrefutável, a vigorosa intervenção basilar promulgada magistralmente por Leão XIII através da encíclica Rerum Novarum iniciou inequivocamente um apelo urgente e incisivo pela instauração inadiável e imediata de uma justa ordenação macroeconômica. Esse ímpeto vigoroso não arrefeceu, antes foi sucessivamente aprofundado com grandiosa amplitude global na admirável visão do afável e magnânimo São João XXIII, e desaguou copiosamente nas profundas convicções libertárias discutidas no Concílio Vaticano II. Naquele conclave memorável, e através de intervenções conciliares incisivas e notáveis proferidas audaciosamente por insignes padres conciliares do quilate inestimável e respeitável do Cardeal Lercaro, reiterou-se solenemente e decididamente que não existe sequer sombra autêntica do grandioso Mistério Místico da salvação revelada se, concomitantemente e concretamente, a dolorosa angústia iminente daqueles inteiramente excluídos das prerrogativas da humanidade livre continuar a ser vergonhosamente submetida à conveniência obscura de governos, sistemas predatórios e capitais financeiros hegemônicos, indiferentes aos gemidos incessantes das infindáveis massas de mendigos silenciados por ideologias estéreis.
Subseqüentemente e com denodo vigoroso, São Paulo VI asseverou dogmaticamente em sua retumbante condenação ao egoísmo voraz, na encíclica Populorum progressio, a sagrada e basilar obrigatoriedade de aplicar e devotar de forma efetiva e inexorável os recursos globais superabundantes estritamente ao benefício comunitário imediato e essencial da humanidade vulnerável. De acordo com as luminosas e incontestáveis premissas doutrinárias ressoadas repetidamente e incansavelmente pelos Bispos e pelos teólogos de todas as latitudes geográficas da terra, invocar qualquer privilégio privado ilimitado sobre aquilo que não constitui escassa necessidade de subsistência particular enquanto vastas hordas esmorecem irremediavelmente de inanição brutal consubstancia uma subversão nefasta contra as próprias intenções amorosas delineadas na Criação originária. Esta contundente e severa denúncia das tiranias visíveis e também das camufladas e imperceptíveis "estruturas de pecado", exaustivamente mapeadas e rechaçadas pelos Bispos Latino-Americanos no memorável e profético evento sinodal transcorrido no influente cenário de Puebla, e ulteriormente ratificadas pela formidável lucidez analítica constante no ensinamento profético, firme e perene tanto de São João Paulo II na Sollicitudo Rei Socialis quanto pelas sólidas constatações da caridade intelectiva expressa e defendida argutamente pelo Papa Bento XVI, converge na demonstração cristalina, exata e categórica de que o escandaloso abismo inaceitável instaurado abruptamente e sem atenuantes entre minorias exultantes no ápice de opulência indescritível e vastíssimas periferias espoliadas cruelmente é o rebento e resultado direto de artifícios impiedosos forjados por especulações iníquas contumazes em que o ser humano e as sociedades fragilizadas se convertem em irrelevantes peões imolados nas gélidas mesas dos cálculos utilitários de um mercado deificado.
Esta constatação macabra remete a sociedade cínica atual ao profundo precipício moral e trágico da severa alienação sistêmica global. Para assegurar as margens de lucro incalculáveis que enriquecem uma parca aristocracia insensível e globalizada, as teorias neoliberais individualistas dissimuladas impõem covardemente desmantelamentos dolorosos e ajustes devastadores sobre os serviços de atenção ao desamparado. Requer-se com suprema imperiosidade, deste modo infalível e irrefutável, que o imenso Povo de Deus oponha-se de modo destemido a este aviltante quadro aterrador de injustiça clamorosa; assumindo e reavivando o Evangelho de modo prático e irrenunciável não na restritiva esfera das orações apáticas de devoção cômoda e individual, mas com ardor na ágora e na praça pública ruidosa, desconstruindo implacavelmente e pacientemente os nefastos esquemas fraudulentos perpetradores de fome e de miséria impenitente.
No seio luminoso das imensas elucubrações encíclicas pontifícias e, de maneira fulgurante e cristalina no paradigmático Documento de Aparecida, o Magistério insiste veementemente na concepção teológica profundamente evangélica de que a opção preferencial irrevogável pelos pobres ostenta uma dimensão indissociavelmente e eminentemente cristológica. A figura pungente e esmagadora do Deus infinito que assumiu amorosamente as amarras precárias da privação emana um desafio cortante e perturbador para o conforto apático de certas mentalidades religiosas e leigas da contemporaneidade anestesiada. Aparecida proclama a necessidade peremptória de transacionar um mero olhar condescendente de tolerância indulgente para uma reverência devota, autêntica e afável, reconhecendo sem dissimulações os pobres não apenas sob o prisma depreciativo e excludente de indivíduos indigentes permanentemente dependentes do beneplácito ocasional dos doadores abastados, mas reverenciando-os explicitamente e sem ambiguidades como autênticos e digníssimos criadores de vida sagrada; artífices inestimáveis da transmissão ininterrupta de valores comunitários e agentes essenciais e incontornáveis na consolidação da fraternidade e da espiritualidade vibrante perante realidades frequentemente brutais, áridas e ameaçadoras. Ao abandonar o conforto elitista resguardado por castelos teóricos e assumir o árduo caminho de partilhar a própria morada terrena com os flagelados, a Igreja se expõe de maneira vulnerável e salutar a uma evangelização invertida indispensável, mediante a qual a presunção pedante de autossuficiência acadêmica é prontamente corroída e dissolvida por lições fulminantes e silentes de autêntica esperança brotadas do pó.
Este reconhecimento imperativo de que os humildes possuem sabedoria latente formidável resgata as antiquíssimas mas perenes denúncias de São Gregório Magno. Em um período conturbado da história em que os impérios ruiam, ele audaciosamente ensinou que o aparente bem-estar ilude e atrofia a alma, mascarando vulnerabilidades íntimas inescapáveis. Os pobres figuram, nesta moldura magistral teológica exposta pelo Santo Padre, como severos juízes e amáveis mestres curativos que despem sem cerimônias a nossa arraigada ilusão de segurança predatória. Por conseguinte, desvencilhar-se sistematicamente do confronto com o desprovido ou refugiar-se nas garantias sedutoras e insípidas do isolamento equivale fatalmente e terrivelmente a evadir-se do próprio coração amoroso de Jesus Cristo; pois o núcleo e a medula inviolável da mística católica estão inextrincavelmente interligados à miséria física, tangível e cruenta do Salvador abandonado.
É, portanto, inaceitável escamotear o chamado caritativo em justificativas pseudo-doutrinais ou em elucubrações gnostizantes evasivas que preconizam, equivocadamente e irresponsavelmente, que a dedicação incondicional à pobreza terrena desviaria a Igreja de sua propalada e inefável missão contemplativa pura. Este "mundanismo espiritual", como acuradamente denunciado pela exortação apostólica, dissimula nas práticas estéreis, em conclaves paralisantes e num zelo dogmático cego e arrogante, um horror covarde à rudeza da dor humana irremediável. Pior ainda, a omissão que confia puerilmente a salvação social às engrenagens invisíveis ou ao pretenso dinamismo mágico e corretivo de mercados puramente eficientes condena milhares de existências sagradas à inanição avassaladora e relega as periferias à barbárie inescusável do esquecimento institucional. Conclui-se exaustivamente que, embora a primazia inconteste da liturgia, da pregação rigorosa e dos ensinamentos sacramentais perpétuos continue vital, a pior discriminação imaginável contra os descartados seria sonegar-lhes o afeto desmedido do acompanhamento integral incansável. A Igreja, como autêntica mãe do luto, não apenas ministra a hóstia celeste imaculada, mas igualmente se abaixa heroicamente para reverter, combater e curar, em nome de Cristo humilhado, a indignidade degradante de estômagos ressequidos.
A exortação avança implacavelmente para o sensível e freqüentemente controverso tema premente da esmola diária, uma prática veneranda na aurora do cristianismo primitivo, mas hodiernamente achincalhada e menosprezada de forma severa mesmo sob discursos oriundos das fileiras supostamente progressistas e cristãs, que a rejeitam, com arrogância sobranceira, sob a alegação simplória de constituir uma atitude puramente assistencialista ineficaz ou humilhante, indigna do empenho libertador de viés sistêmico estrutural. Não se questiona de modo algum — e isso o documento sublinha com incisiva e meridiana clareza — que a promoção excelsa por excelência reside indiscutivelmente na restauração profícua das plenas condições para um trabalho fecundo e digno, uma vez que a sólida Doutrina Social da Igreja atesta sem descanso que laborar configura a dignificação magna e insubstituível do ser humano adulto pela sua imensa participação continuada no labor ininterrupto da Criação amorosa de Deus sobre o cosmos em aperfeiçoamento. Ademais, o gesto da modesta doação avulsa e interpessoal em circunstância alguma tem o poder e o condão absolvedor para eximir acovardadamente governos constituídos de estados opressores ou as opacas macro-estruturas neoliberais impiedosas da sua irrenunciável e pesada responsabilidade moral de combater diligentemente e efetivamente as calamitosas matrizes da pobreza planetária avassaladora e da espoliação desregulada dos recursos coletivos vitais. No entanto, rejeitar categoricamente e irredutivelmente a provisão premente da esmola emergencial mediante desculpas ideológicas ou pretexto estritamente e arrogantemente organizacionais quando deparamos abruptamente nas ruas sombrias com o abismo humano e a inanição aterradora consubstancia uma traição atroz da fé que arruina as entranhas mais recônditas da piedade cristã. Corremos, assim, o inexorável risco macabro de deixar aquele ser infeliz esmorecer fisicamente aos nossos pés inertes, insensibilizando irrevogavelmente a nossa alma em nome de uma pureza sociológica gélida e abominavelmente covarde de coração.
O ato concreto, afável e íntimo da esmola, quando vivenciado sem os holofotes da vaidade desoladora, obriga instantânea e salutíferamente o crente a parar a sua cega engrenagem produtivista pessoal, abaixar o olhar perscrutador repleto de preconceitos, encostar as suas mãos atarefadas sobre o rosto de quem, na penumbra invisível da sarjeta e das misérias abandonadas, carece urgentemente não só de farta assistência, mas de uma faísca tênue e vivificante de pura estima e reconhecimento. Tocar sem asco o pobre infunde o imprescindível néctar divino da afabilidade generosa no tecido urbano ressecado da atual vida social e desestruturada; sociedade esta envenenada impiedosamente pelos cálculos corrosivos das vantagens mútuas e utilitarismos frenéticos do egocentrismo materialista onipresente. Já os textos basilares do Antigo e Novo Testamento elevam, em vigorosa uníssona liturgia da caridade incandescente, o amparo providencial contínuo do indigente ao formidável patamar de passaporte dourado e celestial insubstituível que livra milagrosamente da penúria eterna. Como ressoam com ênfase as eloquentes homilias vibrantes pronunciadas fervorosamente por luminares indômitos como o gigante patriarca São João Crisóstomo e o ardoroso pregador místico São Gregório de Nazianzo: as pompas eustáticas devotadas solitariamente na paz da sacristia sem estenderem braços fortes que abracem as fragilidades e leprosários representam um louvor inteiramente claudicante e falsificado; ao passo que a caridade tangível atua velozmente como asa protetora indispensável que infalivelmente propulsa a oração aos inescrutáveis tronos redentores do Onipotente.
Em suma majestosa, e como corolário formidável deste chamado contínuo, a exortação papal implora que compreendamos que o profetismo inerente e avassalador do amor evangélico despreza com altivez triunfal todos os entraves mesquinhos fincados teimosamente pelos medos humanos mundanos da sociologia estéril de planilhas infecundas. A vocação divina anula os labirintos do rancor inútil, suplanta todos e quaisquer fossos sociais enraizados em aversões de cunho identitário deprimente e aproxima inimigos até o milagre irrefutável da amizade transformadora que abraça. Uma Igreja amedrontada ou meramente empenhada em erigir baluartes ideológicos apologéticos excludentes que a mantenham infensa e resguardada dos imensos choros convulsos do rebanho exilado das margens se converteria em uma seita fossilizada insensata, completamente esquecida das advertências da cruz dolorosa do Calvário ensanguentado de Cristo morto por amor integral. Portanto, combater o desespero por meio de gestos pequenos insistentes ou lutar vigorosamente nas frentes imensuráveis e difíceis da modificação político-estrutural profunda encerram, inegavelmente e inseparavelmente, o genuíno ardor de quem se compromete a realizar o amor salvífico de Cristo imortal com eficácia concreta, tornando plenamente audível aos proscritos a voz consoladora e vivificante: "Eu te amei".