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O Grande Desconhecido: O Espírito Santo e seus Dons

Índice

  • Introdução: O Espírito Santo, o Deus Desconhecido
  • Capítulo 1 — O Espírito Santo na Trindade
  • Capítulo 2 — O Espírito Santo na Sagrada Escritura
  • Capítulo 3 — Nomes do Espírito Santo
  • Capítulo 4 — O Espírito Santo em Jesus Cristo
  • Capítulo 5 — O Espírito Santo na Igreja
  • Capítulo 6 — O Espírito Santo em Nós
    • A graça santificante
    • A inhabitação trinitária
  • Capítulo 7 — Ação do Espírito Santo na Alma
    • As virtudes infusas
    • Os dons do Espírito Santo
    • Os frutos do Espírito Santo e as bem-aventuranças
  • Capítulo 8 — O Dom do Temor de Deus
  • Capítulo 9 — O Dom da Fortaleza
  • Capítulo 10 — O Dom da Piedade
  • Capítulo 11 — O Dom do Conselho
  • Capítulo 12 — O Dom da Ciência
  • Capítulo 13 — O Dom do Entendimento
  • Capítulo 14 — O Dom da Sabedoria
  • Capítulo 15 — A Fidelidade ao Espírito Santo

Introdução: O Espírito Santo, o Deus Desconhecido

Quando São Paulo chegou a Atenas, chamou-lhe a atenção um altar dedicado "ao Deus desconhecido". Anos depois, ao encontrar discípulos em Éfeso que já haviam abraçado a fé cristã, perguntou-lhes se tinham recebido o Espírito Santo. A resposta foi desconcertante: "Nem sequer ouvimos falar de que existe o Espírito Santo." Antonio Royo Marín, dominicano espanhol e reputado teólogo, abre seu livro El Gran Desconocido constatando que, passados vinte séculos de cristianismo, essa situação pouco mudou. Para a imensa maioria dos cristãos de hoje, o Espírito Santo permanece sendo o "Deus desconhecido" — ouvem seu nome, mas sabem pouquíssimo sobre ele.

O autor identifica três causas principais para este lamentável esquecimento. A primeira é a falta de manifestações sensíveis: ao contrário do Pai, cujas obras estampam toda a criação visível, e do Filho, que se encarnou e cuja memória é cultivada por liturgias, imagens, festas e pela Eucaristia, o Espírito Santo não se encarnou, não conviveu visivelmente com os homens e apenas se manifestou três vezes sob sinais sensíveis — a pomba sobre Jesus no Jordão, a nuvem luminosa no Tabor e as línguas de fogo no Cenáculo. Como sublinhou São Basílio, o Espírito Santo é o autor mais íntimo e espiritual de tudo o que as criaturas possuem tanto na ordem natural quanto sobrenatural; contudo, sua santificação oculta escapa absolutamente à percepção dos sentidos. A segunda causa é a escassez de doutrina: monsenhor Gaume já lamentava que, em séculos de pregação cristã, Bossuet não tenha escrito um único sermão sobre o Espírito Santo — nem Massillon, e Bourdaloue quase nenhum —, e os catecismos diocesanos se limitam a poucas definições abstratas, sem fazer o Espírito Santo tornar-se pessoa real na mente dos fiéis. Os dons, puramente espirituais e interiores, não são acessíveis à imaginação nem aos sentidos, e a doutrina ordinária não os mostra em si mesmos, em sua aplicação à vida, nem em sua necessária concatenação para o organismo sobrenatural do homem. A terceira é a falta de devoções: a solenidade de Pentecostes, que na liturgia se iguala ao Natal e à Páscoa em importância, passa quase despercebida ano após ano, como se fosse um domingo comum, enquanto outras festas secundárias movem multidões.

As consequências são graves. Ignorar o Espírito Santo significa ignorar a própria fonte da vida sobrenatural, pois o Credo o professa como "Senhor e vivificador" (Dominum et vivificantem). Esse princípio — a dependência da vida sobrenatural da virtude do Paráclito — é fundamentalmente dinâmico, constituindo o ponto de partida de todo progresso espiritual, desde a vida cristã comum até as formas mais sublimes de santidade. Sem um conhecimento adequado e um culto vivo ao divino Paráclito, o germe da vida cristã, infundido no batismo, fica como que paralisado. A alma sofre, vegeta, enfraquece, e dificilmente chegará à maturidade cristã; o mundo da graça, com suas leis maravilhosas, suas lutas, alegrias e fim eterno, torna-se como se não existisse. O único caminho para uma vida verdadeiramente cristã é conhecer, invocar, amar e viver em união íntima com o Espírito Santo. Royo Marín oferece seu estudo teológico-místico à Imaculada Virgem Maria, esposa fidelíssima do Espírito Santo, para que o abençoe e o fecunde para a glória de Deus e santificação das almas.


Capítulo 1 — O Espírito Santo na Trindade

A doutrina católica ensina como dogma fundamental que existe um só Deus em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. O autor cita extensamente o célebre Símbolo Atanasiano (Quicumque), que proclama a igualdade absoluta das três pessoas em eternidade, imensidade, onipotência e divindade, distinguindo-as apenas pela origem: o Pai não foi feito, criado nem gerado; o Filho foi engendrado pelo Pai; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Cada pessoa é tão Deus, tão eterno, tão imenso e tão onipotente quanto as outras duas, e, todavia, não há três deuses, três eternos nem três onipotentes, mas um único Deus, eterno e onipotente — mistério que excede toda compreensão criada.

A geração do Filho pode ser intuída por uma analogia humana: quando alguém se contempla num espelho, produz uma imagem perfeitamente semelhante a si mesmo. Assim Deus Pai, conhecendo-se a si mesmo com infinita perfeição, engendra o Verbo — imagem substancial, expressão total da inteligência divina, igual ao Pai em natureza e distinto dele apenas por relação de origem. Bossuet sublinha que essa geração é tão perfeita que esgota toda a fecundidade do Pai: "Deus não terá jamais outro Filho que este, porque é infinitamente perfeito e não pode haver dois como ele. Uma só e única geração desta natureza perfeita esgota toda sua fecundidade e atrai todo seu amor." Monsenhor Gay acrescenta que a Palavra divina diz tudo absolutamente — "quem a ouvisse perfeitamente não faria mais que compreender todas as coisas, pois compreenderia o Autor das coisas." Dom Columba Marmión descreve a geração com precisão teológica: o Pai, Inteligência infinita, se compreende a si mesmo em um único ato; nessa ideia concebida pela inteligência eterna, nessa palavra pela qual Deus se exprime a si mesmo, está o Verbo. O Filho é perfeito, possui com o Pai todas as perfeições divinas, salvo a propriedade de "ser Pai"; iguala o Pai pela unidade de natureza e jamais dele se separa — o Verbo vive eternamente no seio de quem o engendra.

A processão do Espírito Santo parte do amor mútuo e infinito entre o Pai e o Filho. Toda a vida do coração humano pode ser resumida numa palavra: "amo". Quando dois amores se encontram e se respondem, surge entre eles algo novo — não o amor de um nem o do outro isoladamente, mas o amor de ambos, vínculo real que os une. Se os amores humanos ficam impotentes para fazer subsistir eternamente esse vínculo de entrega mútua, em Deus tal impotência é impossível: o amor do Pai e do Filho, chegando ao grau máximo, não fala, não canta, não grita, mas se expande num sopro, numa espiração que, entre o Pai e o Filho, se faz — como eles — real, substancial, pessoal e divina: o Espírito Santo. Há na vida da Trindade um contínuo fluxo e refluxo: a vida do Pai, princípio e fonte, transborda no Filho; e do Pai e do Filho comunica-se, por via de amor, ao Espírito Santo, término último das operações íntimas da divindade. O Espírito Santo, que goza assim da recíproca doação do Pai e do Filho, os reúne e mantém por sua vez na unidade. Dom Marmión sintetiza: o Espírito Santo é em Deus "um amor subsistente, uma pessoa distinta das outras duas", possuidora da mesma e única natureza divina, da mesma ciência, poder, bondade e majestade.

Teologicamente, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Filioque), ponto definido contra os ortodoxos gregos que rejeitam o Filioque. Sem essa dupla procedência o Espírito Santo não se distinguiria do Filho, pois as pessoas divinas só se distinguem por relações de origem mutuamente opostas. O Pai e o Filho constituem um único princípio espirador do Espírito Santo. Estas são as mais elevadas realidades que a teologia pode articular sobre o mistério trinitário — sombras que só a visão beatífica dissolverá completamente, revelando o mistério inefável que fará eternamente felizes os bem-aventurados da Jerusalém celeste.

Uma consequência prática da doutrina trinitária que Royo Marín sublinha: a distinção das três pessoas não implica menor amor ou atividade do Pai ou do Filho em relação à nossa santificação. A missão do Espírito Santo não substitui as missões do Pai e do Filho, mas as consuma. O Pai criou; o Filho redimiu; o Espírito Santo santifica — mas estas três missões são inseparáveis e cada uma implica as outras duas. Por isso Santo Ireneu dizia que o Filho e o Espírito Santo são "as duas mãos do Pai": com o Filho, Deus moldou o homem à sua imagem; com o Espírito, Deus sopra nele a vida divina. A vida cristã autêntica é sempre trinitária: falar ao Pai através do Filho, no Espírito Santo — como São Paulo sintetiza na saudação final da Segunda Carta aos Coríntios: "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós" (2Cor 13,13).

Capítulo 2 — O Espírito Santo na Sagrada Escritura

Tudo o que sabemos sobre o Espírito Santo provém da revelação divina. A razão natural pode demonstrar a existência de Deus e conhecer certos atributos divinos como simplicidade, bondade e eternidade, mas jamais poderia sozinha suspeitar da existência de três pessoas distintas num único Deus. O mistério trinitário pertence à ordem dos fatos revelados, inacessíveis à filosofia natural. Esse ponto é capital: assim como nenhum servo, por mais próximo que seja de seu senhor, conhece os segredos íntimos de sua vida familiar a não ser que ele os revele, assim também a vida íntima de Deus — sua estrutura trinitária — só se conhece pelo testemunho do próprio Deus na Sagrada Escritura.

No Antigo Testamento a pessoa do Espírito Santo não aparece com clareza e distinção — o que não surpreende, pois a plena revelação trinitária estava reservada ao Novo Testamento. A expressão hebraica ruah Yavé (espírito de Deus) apresenta quatro sentidos principais: (a) o vento, manifestação da presença, força ou ira divinas e também o sopro de vida infundido no homem e nos animais — "o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em seu rosto o sopro de vida" (Gn 2,7); quando Deus retira esse sopro, sobrevém a morte; (b) fenômenos religiosos específicos, como o poder artesanal de Bezalel e dos obreiros do tabernáculo (Ex 31,2-3), a capacidade de governar recebida por Moisés e comunicada aos setenta anciãos (Nm 11,17), a força guerreira dos juízes como Gedeão e Sansão e, sobretudo, a inspiração profética — "Não foi por vontade humana que foram pronunciadas as profecias, mas homens movidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus" (2Pd 1,21); (c) um sopro de santidade, cujos efeitos são firmeza, contrição, humildade, retidão e paz — nesse contexto o Salmo 51 (Miserere) usa pela primeira vez a expressão "Espírito Santo" ("não retires de mim o teu Espírito Santo", v.11), e Isaías afirma que os rebeldes que fazem alianças sem esse Espírito "entristeceram o Espírito Santo" de Deus (Is 63,10); (d) um fenômeno essencialmente messiânico: o Messias será possuído sem limites pelo Espírito (Is 11,1-3: espírito de sabedoria, de entendimento, de conselho, de fortaleza, de ciência e de temor), e na época messiânica haverá uma intensa efusão do ruah Yavé sobre toda a carne (Jl 3,1-2) — promessa que Pedro citará no dia de Pentecostes como se cumprindo ali.

No Novo Testamento aparece a plena revelação do Espírito Santo como terceira pessoa da Santíssima Trindade. Já nos prólogos da infância de Jesus o Espírito age de modo prodigioso: enche o Batista antes de nascer (Lc 1,15), traz a Maria o dinamismo do Altíssimo na Anunciação (Lc 1,35), comunica-se a Isabel (Lc 1,41) e a Zacarias (Lc 1,67), e repousa sobre o ancião Simeão, revelando-lhe o Salvador (Lc 2,25-27). Jesus é "movido" pelo Espírito para o deserto após o Batismo (Lc 4,1), inicia seu ministério "cheio do Espírito Santo" lendo em Nazaré: "O Espírito do Senhor está sobre mim" (Lc 4,18), e promete enviar o Paráclito aos apóstolos após sua ascensão — "é conveniente para vós que eu parta, porque se eu não partir, o Paráclito não virá a vós" (Jo 16,7). O Pentecostes cumpre a profecia de Joel, o anúncio do Batista ("ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo") e a promessa de Jesus — efusão inaugural renovada depois em diversas ocasiões, quer por iniciativa divina, quer mediante o rito da imposição das mãos (At 8,17; 19,6). São Paulo elabora a teologia do Espírito com precisão magistral: é o Espírito de Deus e de Cristo (Rm 8,9), faz os justos templos de Deus (1Cor 6,19), é o princípio da vida em Cristo (Rm 8,2), distribui todos os dons "como quer" (1Cor 12,11), sonda os segredos de Deus (1Cor 2,10-11), move o crente de modo que agrade a Deus (Rm 8,14) e não deve ser entristecido (Ef 4,30). A fórmula batismal ditada pelo próprio Cristo — "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19) — coloca o Espírito Santo em plano de igualdade com as outras duas pessoas; e nas epístolas paulinas as três pessoas divinas aparecem associadas de modo permanente, especialmente na bênção final da Segunda Carta aos Coríntios: "A graça de Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós" (2Cor 13,13).


Capítulo 3 — Nomes do Espírito Santo

Para conhecer as pessoas divinas, é muito útil examinar os nomes com que a Escritura, a tradição e a liturgia as designam, pois cada nome encerra um aspecto ou matiz que as revela um pouco melhor. Dom Columba Marmión explica o conceito de "apropriação": as operações ad extra (para fora de Deus) são comuns às três pessoas, pois procedem da natureza divina, una e indivisível; contudo, a Igreja atribui certas obras a determinada pessoa por sua afinidade com as propriedades pessoais exclusivas dessa pessoa. Ao Pai se apropriam as obras que manifestam potência e origem; ao Filho, as obras em que brilha a Sabedoria; ao Espírito Santo, tudo o que implica perfecionamento, amor e santificação. Esta lei de apropriação é fundamental para compreender a linguagem da liturgia, da Escritura e dos místicos quando falam do Espírito Santo.

É por esse princípio de apropriação que São Paulo pode dizer ao mesmo tempo que o amor de Deus "foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo" (Rm 5,5), mas também que "o amor de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8,39) é inextricável. Tanto o amor como a santificação e a consolação são operações comuns às três pessoas — mas o Espírito Santo, sendo pessoalmente o Amor e o Dom, é o termo e o sinal vivente dessas obras em nós, e por isso delas recebe de modo apropriado a atribuição. Este princípio, compreendido claramente, evita o erro de separar o Espírito do Pai e do Filho, tornando a pneumatologia (doutrina do Espírito) inseparável da trinitologia (doutrina da Trindade). Todo aprofundamento da devoção ao Espírito Santo é, ao mesmo tempo, aprofundamento do mistério do amor eterno do Pai e do Filho — e, portanto, o mais alto nível de vida teologal que pode alcançar uma alma criada.

Nomes próprios da terceira pessoa divina, segundo Santo Tomás, são três:

  1. Espírito Santo — tomadas as duas palavras separadamente, convêm às três pessoas (todas são espírito e santas); tomadas como nome único, pertencem exclusivamente à terceira, pois só ela procede das outras duas por uma espiração comum de amor infinitamente santo. A Igreja define (contra os gregos) que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Filioque); sem essa dupla procedência ele não se distinguiria do Filho, uma vez que as pessoas divinas só se distinguem por relações de origem mutuamente opostas.

  2. Amor — em sentido pessoal (não meramente essencial ou nocional) convém exclusivamente ao Espírito Santo como termo da espiração de amor entre o Pai e o Filho. Pode-se dizer que o Pai e o Filho se amam pelo Espírito Santo no sentido do amor nocional originante — como a emissão da palavra é produzir o verbo, a emissão do amor é espirar o Espírito. Santo Tomás estabelece que o Espírito Santo é "o amor com que o Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai, e com que ambos nos amam" — e por isso toda obra de amor de Deus para conosco se atribui de modo especial ao Espírito.

  3. Dom — em sentido pessoal convém exclusivamente ao Espírito Santo, pois ele, por proceder por via de amor, tem razão de primeiro dom: o amor é a primeira coisa que damos a uma pessoa quando lhe concedemos alguma graça, sendo o fundamento de todo outro dom. Por isso João da Cruz diz: "Onde não há amor, ponha amor, e colherá amor."

Nomes apropriados ao Espírito Santo são numerosos, cada um iluminando uma face do seu mistério: Paráclito (advogado, consolador, mestre interior — João 14,16), Espírito Criador (pois Deus cria por amor, e o amor em Deus é o Espírito Santo: "envia teu Espírito e serão criados" — Sl 104,30), Espírito de Cristo (Rm 8,9), Espírito de Verdade (Jo 16,13), Virtude do Altíssimo (Lc 1,35), Dedo de Deus (hino Veni Creator: "Dedo da destra do Pai", Mt 12,28), Hóspede da alma (a inhabitação se atribui especialmente ao Espírito por ser obra de amor), Fonte Viva (Jo 7,37-39), Fogo (At 2,3), Unção Espiritual (1Jo 2,27), Luz dos corações, Pai dos pobres e Doador de dons (sequência de Pentecostes). Além destes, a tradição teológica acrescenta: Nexo, Vínculo, Beijo e Ósculo — que exprimem sua função de laço de amor entre o Pai e o Filho e, por extensão, entre Deus e a alma. Cada um desses nomes, bem meditado em oração, encerra ensinos práticos para intensificar nas almas o amor e a veneração ao Espírito santificador, a cuja perfeita docilidade está vinculada a progressão ascendente em direção às mais elevadas formas de santidade.

Capítulo 4 — O Espírito Santo em Jesus Cristo

O Espírito Santo realizou obras admiráveis na pessoa de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro. Oito episódios da vida de Jesus merecem atenção especial.

1. A Encarnação. A obra-prima do Espírito Santo é seu concurso decisivo no mistério da Encarnação do Verbo nas entranhas virgens de Maria. Embora a Encarnação seja uma operação ad extra comum às três pessoas divinas, ela se atribui de modo especial ao Espírito Santo por conveniente apropriação: sendo a maior prova de amor que Deus deu às suas criaturas, é justo atribuí-la àquele que é pessoalmente o Amor substancial na Trindade. O Credo repete as palavras do anjo: "O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra" (Lc 1,35). Por isso, o Espírito Santo torna-se fecundo de modo misterioso mas real — formando a humanidade de Jesus da carne imaculada de Maria, como o Deus Criador formou o primeiro Adão da terra virgem, segundo a expressão de Santo Ambrósio. A Encarnação é, assim, a obra de amor mais sublime da história, e ao Amor pessoal é naturalmente atribuída.

2. A santificação da alma de Cristo. Além da graça de união (hipostática), que faz Cristo-homem ser pessoalmente o Filho de Deus, sua alma santíssima possui em plenitude imensíssima a graça habitual ou santificante, cuja efusão se atribui também ao Espírito Santo. O próprio Cristo aplicou a si mesmo em Nazaré o texto de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres" (Is 61,1; Lc 4,18). Essa unção espiritual nunca se infunde sozinha: traz consigo o cortejo riquíssimo das virtudes infusas e dos dons do Espírito Santo. Isaías anunciou a plenitude dos dons no Messias: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, e o espírito de temor de Deus (Is 11,1-3). Em nenhum outro ser esses dons produziram frutos tão sublimes de santidade. Jesus lançou o desafio a seus adversários: "Quem de vós me arguirá de pecado?" (Jo 8,46), e ninguém jamais pôde surpreendê-lo na menor falta. A graça santificante de Cristo, sendo a de uma pessoa divina, é por si mesma inesgotável e inaumentável — mas o Espírito Santo é, em todo caso, o artífice que a comunica à humanidade assumida.

3. O Batismo no Jordão. No batismo de Jesus, o Espírito desceu em forma de pomba e a voz do Pai proclamou: "Este é meu Filho muito amado, no qual me comprazo" (Mt 3,17). Santo Tomás observa que foi convenientíssimo o Espírito descer em forma de pomba — símbolo da simplicidade e candor que todo batizado deve cultivar, e também da mansidão que caracterizou o Cordeiro que tira o pecado do mundo. O Batismo de Cristo manifestou o mistério trinitário em sua totalidade: a voz do Pai, a presença corporal do Filho e a pomba do Espírito Santo — primeira epifania plena das três Pessoas divinas.

O fato de Cristo receber o batismo de penitência de João — sendo Ele o único Inocente — é um dos paradoxos mais reveladores do Evangelho. Ao descer às águas do Jordão em companhia de pecadores, Jesus antecipou seu batismo de sangue e nos deixou o ensinamento radical de que a humildade é o fundamento de toda vida espiritual. A nuvem do Espírito, pairando como pomba sobre as mesmas águas que o Gênesis descrevia "pairando sobre o caos" (Gn 1,2), indica que aqui começa a nova criação — e que o batismo cristão, instituído em gérmen neste momento, é precisamente essa nova criação que o Espírito realiza em cada alma.

4. As tentações no deserto. Os três evangelistas sinóticos registram que Jesus foi conduzido ao deserto pelo próprio Espírito Santo "para ser tentado pelo diabo." Jesus não tinha necessidade de submeter-se às tentações, pois era "santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores" (Hb 7,26). Mas quis fazê-lo por três razões: para nos merecer o auxílio contra as tentações; para mostrar que nenhum homem, por mais santo, está isento delas nesta vida; e para nos ensinar pela experiência como vencê-las. Quando Satanás propõe os três grandes ídolos da humanidade — pão (prazer), glória (vaidade) e poder (soberbia) —, Jesus responde com a palavra de Deus, mostrando o caminho real da virtude. A teologia explica que, nos momentos de prova, a divindade como que se recolhia — não abandonando a humanidade de Cristo, mas deixando-a agir instrumentalmente — tornando seu triunfo verdadeiro mérito para nós.

5. A Transfiguração no Tabor. A cena da Transfiguração manifestou toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho na glória de sua humanidade transfigurada, e o Espírito Santo na nuvem resplandecente. Santo Tomás explica que assim como no Batismo se manifestou o mistério da regeneração com a presença das três pessoas, na Transfiguração se revelou o mistério da futura glorificação — a nuvem luminosa simbolizando o refrigério e o alívio de todo mal que Deus dará aos eleitos na ressurreição. Moisés e Elias conversam com Jesus sobre o "êxodo" que ele completaria em Jerusalém, unindo a Lei, os Profetas e o cumprimento do mistério pascal.

6. Os milagres. O Espírito Santo acompanhava Jesus em todos os seus prodígios. Jesus os realizava como Senhor da natureza que o Espírito vivificara desde o princípio — com calma soberana, sem implorar auxílio, bastando uma palavra ou um gesto. Curou leprosos, ressuscitou Lázaro, acalmou tempestades, multiplicou pães. E os realizava por sua própria virtude divina, ao contrário dos apóstolos e santos, que os realizam sempre em nome de Cristo e por sua delegação — o que é uma diferença radical que revela a consciência divina de Jesus.

7. A doutrina evangélica. Na sublime doutrina de Cristo sente-se o Espírito Santo aletejando continuamente com seus dons de sabedoria, entendimento, ciência e conselho. Suas palavras são "espírito e vida" (Jo 6,63), capazes de transformar radicalmente a existência humana. A doutrina do Evangelho é universal, transcende épocas e culturas, e jamais será superada — porque é a genuína expressão da Verdade eterna. Jesus confiou ao Espírito a tarefa de completar e aprofundar seus ensinamentos: "O Espírito Santo vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que vos disse" (Jo 14,26), e "quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade" (Jo 16,13).

8. As atividades humanas. Em toda a atividade humana de Jesus — desde os quarenta dias no deserto até o sacrifício da cruz — o Espírito Santo guiava cada passo. São Paulo declara: "O qual, por meio do Espírito eterno, se ofereceu a Deus como hóstia imaculada" (Hb 9,14). A alma de Jesus, unida ao Verbo pela união hipostática e enriquecida pela graça santificante, obrava em todo momento sob a suave moção do Espírito Santo. A Paixão e a Ressurreição são os atos culminantes dessa cooperação: o mesmo Espírito que gerou a humanidade do Verbo no seio de Maria e que reposou sobre ela durante toda a vida terrena de Jesus, está presente também na hora suprema em que o Filho se oferece ao Pai — e é esse mesmo Espírito que sela a vitória na manhã de Páscoa, quando Cristo ressuscita pelos "prodígios do Pai" (At 2,24). O Homem-Deus é, assim, sem dúvida alguma, a obra-prima do Espírito Santo.


A contemplação desses oito episódios ilumina uma verdade que Royo Marín considera fundamental para a espiritualidade cristã: Cristo não é apenas o modelo de como devemos ser, mas a fonte de onde a ação do Espírito Santo em nós jorra. O Espírito que operou nesses oito momentos da vida de Jesus não esgotou ali sua missão: continua a atuar nos membros do Corpo Místico com a mesma intensidade e os mesmos critérios. Assim como o Espírito guiou Jesus ao deserto para combater, guia os santos às suas "noites escuras"; assim como infundiu em Jesus a ciência integral da verdade divina, infunde nos fiéis os dons de entendimento e ciência; assim como acompanhou Jesus na hora da cruz, fortalece os mártires na hora do testemunho.

Capítulo 5 — O Espírito Santo na Igreja

Antes de subir ao céu, Jesus prometeu aos discípulos que rogaria ao Pai para que lhes desse o Espírito Santo. Pentecostes marca, como descreve Dom Marmión, "a tomada de posse por parte do Espírito divino do Corpo místico de Cristo". Se Cristo é a Cabeça da Igreja, o Espírito Santo é sua alma. É ele quem a guia e inspira, guardando-a na verdade de Cristo segundo a promessa do Senhor: "Vos ensinará toda a verdade" (Jo 14,26).

A ação do Espírito na Igreja se manifesta em três funções análogas às da alma no corpo humano:

1. O Espírito Santo unifica a Igreja. Há na Igreja grande diversidade: hierárquica (papa, bispos, sacerdotes), carismática (milagres, profecia, ensino) e santificadora (graus diferentes de perfeição). Apesar dessa pluralidade, existe uma unidade íntima. Cristo pediu ao Pai: "Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti" (Jo 17,21). A unidade pedida é análoga à que existe entre o Pai e o Filho — unidade que se consubstancia no próprio Espírito Santo. O amor é o princípio unificador, e o Espírito Santo unifica pelo amor. São Paulo o afirma claramente: "Todos nós fomos batizados num só Espírito para constituir um só corpo" (1Cor 12,13).

2. O Espírito Santo vivifica a Igreja. As sociedades humanas têm vida em certo sentido, mas seu princípio animador está fora delas — no fim extrínseco. A Igreja, ao contrário, possui um princípio vivificador intrínseco: o Espírito Santo. Ele não é apenas fim e meta, mas princípio animador interno. Assim como o Espírito interveio no nascimento de Cristo (fecundando ativamente Maria), interveio no nascimento da Igreja em Pentecostes — o "batismo" da Igreja — na presença de Maria e do Espírito Santo. É também o Espírito quem vivifica cada membro: "Os que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus" (Rm 8,14). Ele dá a vida de dentro, não de fora, habitando em cada alma e em todo o Corpo.

3. O Espírito Santo move e governa a Igreja. Para governar é necessário conhecer e amar: o Espírito infunde o conhecimento do sobrenatural (a fé) e o amor divino (a caridade). Intervém na designação dos hierarcas (At 20,28) e distribui a cada um os diversos carismas "como quer" (1Cor 12,11). São Agostinho resumiu com genialidade: "O que é a alma para o corpo do homem, é o Espírito Santo para o Corpo de Cristo, que é a Igreja." Essa doutrina foi confirmada pelo Magistério — Pio XII na encíclica Mystici Corporis e o Concílio Vaticano II na Constituição Lumen Gentium — ao afirmar que o Espírito vivifica, une e move todo o Corpo, de modo que os Santos Padres puderam comparar sua função à da alma no corpo humano.

A ação do Espírito se manifesta também por meio de todos os sacramentos. O Espírito fecunda as águas do Batismo ("Se não renascerdes da água e do Espírito Santo, não entrareis no reino de Deus", Jo 3,5). Na Confirmação, confere a plenitude da condição cristã — um verdadeiro Pentecostes pessoal, revestindo o fiel da fortaleza de Cristo para ser sua testemunha no mundo. Na Eucaristia, a epiclese oriental atribui ao Espírito o milagre da transubstanciação. Na Penitência, "os pecados são perdoados pelo Espírito Santo" (Jo 20,22-23). Na Unção dos Enfermos, pede-se ao Espírito que cure o doente de suas doenças e culpas. Nos primeiros dias da Igreja, a ação do Espírito foi muito mais visível — com milagres, profecia, dom de línguas e outros carismas extraordinários —, pois era necessário que a Igreja se estabelecesse solidamente diante do mundo pagão. Com o tempo, essa ação se tornou mais interior e oculta, mas não menos real. Como o vento, que invisível move os maiores navios: o Espírito Santo age com mais silêncio quanto mais alto é o grau de santificação que opera — reservando as manifestações externas para os momentos fundadores e agindo interiormente nos que já foram ganhados para a fé. Os carismas, explica Royo Marín com Santo Tomás, estão ordenados à utilidade alheia — são instrumentos pastorais, não prova de santidade pessoal; a santidade pessoal, essa, é obra sempre do Espírito interior, cujos efeitos são os frutos de que fala Paulo: "amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gl 5,22-23).


Capítulo 6 — O Espírito Santo em Nós

Passando da ação do Espírito na Igreja para sua ação em cada alma, o autor aborda um dos temas mais sublimes da teologia: a habitação do Espírito Santo na alma justificada pela graça.

A graça santificante

A graça santificante pode ser definida como um dom sobrenatural infundido por Deus em nossas almas para nos dar uma participação verdadeira e real de sua própria natureza divina, tornar-nos filhos seus e herdeiros da glória. Cada elemento da definição é explorado:

  • É um dom gratuito, que ninguém pode merecer antes de possuí-lo, embora possa pedi-lo humildemente pela oração.
  • É sobrenatural — pertence ao plano da divindade, infinitamente superior a toda criatura, incluindo os anjos. Santo Tomás afirma que "o bem da graça de um só indivíduo é maior que o bem natural de todo o universo" (Suma Teológica I-II, q.113 a.9). A menor participação da graça santificante vale infinitamente mais do que toda a criação universal.
  • É infundida por Deus — só Ele, autor da ordem sobrenatural, pode comunicar uma participação de sua própria natureza. Todas as criaturas juntas do universo jamais poderiam produzir a mais ínfima centelha de vida divina.
  • Reside na alma, não no corpo — é realidade espiritual invisível, assim como o pensamento e o amor não se veem nem se tocam e, no entanto, são realidades autênticas.
  • Diviniza-nos, tornando-nos participantes da natureza de Deus (2Pd 1,4): não no sentido panteísta de fusão substancial, mas por participação analógica e acidental, pela qual a alma, sem deixar de ser alma humana, recebe uma real participação da vida divina — conhecendo e amando a Deus tal como Ele se conhece e se ama.
  • Nos faz filhos adotivos de Deus — não por uma mera adoção jurídica externa, como a adoção humana que dá nome e herança mas não transmite sangue, mas por adoção intrínseca que comunica a própria natureza divina. Empregando linguagem metafórica, a graça é uma transfusão de sangue divino na alma; em virtude desse enxerto divino, o batizado pode legitimamente chamar a Deus de Pai, não por cortesia mas por realidade.
  • Nos faz herdeiros do céu — pois se somos filhos, somos também herdeiros (Rm 8,17), e essa herança não diminui com o número de participantes por ser rigorosamente infinita.

Os principais efeitos da graça santificante são: (a) divinizar-nos, fazendo-nos participantes da natureza de Deus; (b) tornar-nos irmãos de Cristo e coerdeiros com ele; (c) infundir as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, que constituem o elemento dinâmico e operativo de nosso organismo sobrenatural. Santo Tomás afirma categoricamente: "A graça não é outra coisa senão um começo da glória em nós."

A inhabitação trinitária

Além da graça santificante — realidade criada —, o Espírito Santo infunde em nós uma realidade absolutamente divina e incriada: a habitação da Santíssima Trindade no fundo de nossas almas. A Escritura o afirma com inequívoca clareza: "Vieremos a ele e nele faremos nossa morada" (Jo 14,23); "o vosso corpo é templo do Espírito Santo" (1Cor 6,19). Esta inhabitação se atribui de modo especial ao Espírito Santo por conveniente apropriação — é obra do amor de Deus ao homem, e o Espírito Santo é o Amor pessoal na Trindade.

A presença de inhabitação se distingue das outras presências de Deus (hipostática em Cristo, eucarística, de visão e de imensidade) por dois traços fundamentais: a paternidade e a amizade divinas. Pela graça santificante, que nos faz filhos adotivos, Deus começa a estar na alma como Pai. Pela caridade sobrenatural, começa a estar como verdadeiro amigo — pois a amizade exige reciprocidade e amor mútuo, e só a graça cria essa reciprocidade entre o homem e Deus.

Há um grau de inhabitação que corresponde a cada aumento de graça. Como a luz do sol penetra mais num ambiente quanto mais as janelas estejam abertas, assim o Espírito Santo penetra mais profundamente numa alma à medida que ela abre sua vontade pela docilidade e o amor. É por isso que os santos descrevem a vida espiritual como um aprofundamento progressivo, não uma situação estática: cada ato de caridade perfeita aumenta a graça e, com ela, a intensidade da habitação trinitária na alma.

A inhabitação trinitária tem duas grandes finalidades. Primeira: fazer-nos participantes da vida íntima divina — São João da Cruz descreve o ápice místico em que a alma, transformada nas três Pessoas, aspira em Deus a mesma aspiração de amor que o Pai aspira no Filho e o Filho no Pai, "porque não seria transformação total se não se transformasse a alma nas três Pessoas em grau revelado e manifesto." Segunda: dar-nos a plena posse de Deus e o gozo fruitivo das Pessoas divinas — Santo Tomás escreve que "pela graça santificante é aperfeiçoada a criatura racional... para gozar da mesma Pessoa divina." Os grandes místicos — Santa Teresa, São João da Cruz, Irmã Isabel da Trindade — descrevem experiências trinitárias inefáveis que confirmam essa sublime doutrina.

A inhabitação se aprofunda com os sacramentos. A Eucaristia — em que recebemos não só a graça, mas o próprio Autor da graça — provoca em cada comunhão bem recebida uma penetração mais intensa das Pessoas divinas na alma, em virtude da circuminsessão intratrinitária: onde está uma Pessoa divina, estão necessariamente as outras duas. A Confirmação é um verdadeiro Pentecostes para cada batizado, conferindo a plenitude do Espírito Santo para tornar o cristão soldado intrépido de Cristo.

Capítulo 7 — Ação do Espírito Santo na Alma

O Espírito Santo não habita na alma de modo passivo, mas para desdobrar nela uma atividade vivíssima, conduzindo-a, se ela não interpõe obstáculos, até os cumes mais elevados da união com Deus. Juntamente com a graça santificante infundem-se na alma as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, que constituem o elemento dinâmico e operativo do organismo sobrenatural.

As virtudes infusas

As virtudes infusas são hábitos operativos infundidos por Deus nas potências da alma para dispô-las a agir sobrenaturalmente segundo o ditame da razão iluminada pela fé. Existem porque a graça santificante, embora radicalmente princípio de todas as operações sobrenaturais, não é operativa por si mesma e não poderia elevar as faculdades ao plano sobrenatural sem esses princípios imediatos de operação.

Dividem-se em dois grupos: as três virtudes teologais (fé, esperança e caridade), que dispõem as potências em ordem ao fim sobrenatural; e as quatro virtudes cardinais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), com todo o séquito de suas virtudes derivadas, que dispõem as potências em ordem aos meios para alcançar aquele fim. Santo Tomás enumera mais de cinquenta virtudes infusas em sua Suma Teológica.

Para que uma virtude infusa passe ao ato, é absolutamente necessária a moção prévia de uma graça atual procedente de Deus. O esforço puramente natural não pode pôr em exercício os hábitos infusos — há um abismo insondável entre o natural e o sobrenatural. A graça atual é, no plano sobrenatural, o que o ar é para a respiração no plano natural: absolutamente indispensável. Por isso o pecador que se confessa e recebe de volta a graça e as virtudes infusas frequentemente recai nos mesmos pecados: as virtudes estão presentes, mas sem a moção divina da graça atual não passam ao ato com a intensidade necessária para vencer as inclinações da natureza ferida.

Os dons do Espírito Santo

O primeiro e grande Dom de Deus é o próprio Espírito Santo, que é o amor com que Deus se ama e nos ama. De Ele procedem todos os demais dons divinos. Em sentido próprio e estrito, os dons do Espírito Santo são hábitos sobrenaturais infundidos por Deus nas potências da alma para receber e secundar com facilidade as moções do próprio Espírito Santo ao modo divino ou sobre-humano.

Vale sublinhar a terminologia: "hábitos" indica que não são graças transeuntes ou moções passageiras, mas disposições estáveis que permanecem na alma em estado de graça, prontas a serem atuadas quando o Espírito move. São como instrumentos musicais afinados à perfeição, aguardando que o Mestre ponha a mão neles — instrumentos que o pecado mortal faz emudecer, mas que a confissão restaura juntamente com a graça santificante.

A existência dos dons fundamenta-se no texto clássico de Isaías (11,1-3), que enumera sete espíritos que repousarão sobre o Messias. Os Santos Padres estendem esse texto a todos os fiéis, em virtude do princípio de São Paulo: os predestinados são conformados à imagem do Filho (Rm 8,29), e tudo o que há de perfeição comunicável em Cristo se encontra também em seus membros. Vários Padres — Justino, Orígenes, Cirilo de Alexandria, Gregório Nacianzeno, Agostinho, Gregório Magno — testemunham essa doutrina. A Igreja a proclamou no sínodo romano de 382 e a evoca continuamente na liturgia de Pentecostes.

A natureza dos dons se esclarece ponto por ponto. São hábitos sobrenaturais — o texto de Isaías diz que os dons "repousarão" sobre o Messias, isto é, permanecerão habitualmente nele, não apenas passando transitoriamente. São infundidos por Deus, pois transcendem toda capacidade natural. Residem nas potências da alma, como as virtudes infusas — alguns no intelecto (entendimento, ciência, sabedoria, conselho), outros na vontade (piedade) ou no apetite sensitivo (temor, fortaleza). Dispõem para receber com facilidade as moções do Espírito Santo. E, fundamentalmente, fazem isso ao modo divino ou sobre-humano — eis a diferença essencial com as virtudes.

A distinção capital entre virtudes infusas e dons está na modalidade da moção divina. Nas virtudes infusas, Deus atua como causa principal primeira, mas o homem é a causa principal segunda, exercendo plenamente a responsabilidade da ação ao modo humano — discursivo, racional. Nos dons, o Espírito Santo atua como causa principal única, e o homem passa à categoria de instrumento — consciente e livre, mas instrumento. Os atos procedentes dos dons são materialmente humanos, mas formalmente divinos — como a melodia que um artista arranca da harpa é materialmente da harpa, mas formalmente do artista. Isso não diminui o mérito, pois o instrumento é vivo e consciente e adere com toda a força do livre-arbítrio à moção divina.

A passividade da alma sob a moção dos dons é apenas relativa: refere-se à iniciativa do ato, que pertence exclusivamente ao Espírito Santo. Uma vez recebida a moção divina, a alma reage ativamente, secundando-a plenamente com toda a sua vitalidade. É por isso que os maiores místicos são também, em geral, as personalidades mais intensas, mais criativas e mais operosas da história da Igreja.

A necessidade dos dons é dupla. Primeiramente, são absolutamente necessários para a perfeição das virtudes infusas. A razão é profunda: as virtudes infusas, ao serem recebidas nas potências humanas, assumem forçosamente o modo humano, degradando-se por acomodação à psicologia natural — ficam como "sufocadas" numa atmosfera humana que lhes é quase irrespirável. Por isso, o pecador que se arrepende e se confessa recai facilmente nos seus pecados, apesar de ter recebido com a graça todas as virtudes infusas. Os dons vêm em auxílio das virtudes, dispondo as potências para serem movidas por um agente superior — o próprio Espírito Santo — que as fará atuar de modo divino, completamente proporcional ao objeto perfectíssimo das virtudes. Sem o regime predominante dos dons do Espírito Santo, é impossível chegar à perfeição cristã.

Royo Marín ilustra essa necessidade com uma analogia: a fé, virtude sobrenatural, tem por objeto a Verdade Primeira, Deus mesmo — objeto absolutamente simples e não discursivo. Mas a fé humana, operando ao modo humano, procede de modo discursivo, laborioso, com raciocínios, dúvidas e medos. É uma desproporção estrutural: o modo de agir (humano-discursivo) é inadequado ao objeto (divino-simples). O dom de entendimento vem suprir essa desproporção, dando à fé o modo divino e intuitivo que lhe é naturalmente devido. O mesmo princípio se aplica aos outros dons em relação às respectivas virtudes.

Secundariamente, os dons são necessários também para a própria salvação. Em certas situações imprevisíveis, em que aceitar ou recusar o pecado é questão de um instante — um escândalo repentino, uma tentação súbita, uma pressão irresistível que exige resposta imediata —, não basta o modo lento e discursivo das virtudes: é precisa a intervenção rápida dos dons de conselho e fortaleza, que proporcionam uma espécie de instinto sobrenatural do divino, um sexto sentido espiritual que percebe imediatamente o que se deve fazer e dá força para fazê-lo.

Os frutos do Espírito Santo e as bem-aventuranças

Os frutos são atos exquisitos de virtude — produzidos pelos dons — que trazem consigo grande suavidade e doçura. São o sinal visível da ação do Espírito na alma, assim como os frutos de uma árvore testemunham a saúde de suas raízes. A Vulgata enumera doze: caridade, gozo espiritual, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade (Gl 5,22-23). São Francisco de Sales comparava a alma espiritual a uma abelha que produz mel: quando o Espírito atua, a ação virtuosa, por mais árdua que seja em si mesma, é praticada com uma suavidade e uma alegria que só quem a experimenta pode compreender.

As bem-aventuranças evangélicas são ainda mais perfeitas que os frutos — são os atos mais sublimes e acabados da vida cristã nesta terra, atribuíveis mais aos dons do que às virtudes, e já carregam nesta vida um antegosto e anticipo da bem-aventurança eterna. Santo Tomás estabelece uma correlação precisa entre virtudes infusas, dons e bem-aventuranças: a caridade corresponde à sabedoria e à bem-aventurança dos pacíficos; a fé ao entendimento e à limpeza de coração; a esperança ao temor e à pobreza de espírito; a prudência ao conselho e à misericórdia; a justiça à piedade e à mansidão; a fortaleza ao dom homônimo e à fome e sede de justiça; a temperança ao temor e à pobreza de espírito. A oitava bem-aventurança (perseguição pela justiça), a mais perfeita de todas, contém e abraça todas as demais nos maiores obstáculos e dificuldades — pois perseverar no bem heroicamente, diante de toda espécie de oposição, exige o concurso pleno de todos os dons juntos.

Capítulo 8 — O Dom do Temor de Deus

O dom do temor ocupa o último e menos perfeito lugar na escala hierárquica dos sete dons, que começa no temor e culmina na sabedoria. Isso não significa que seja de pouca importância: é o portão de entrada da vida espiritual, o "princípio da sabedoria" (Pr 1,7), e sem ele nenhum dos outros dons opera com eficiência.

Pode Deus ser temido? À primeira vista, o temor pareceria incompatível com a esperança. Mas Deus é também infinitamente justo, que odeia e castiga o pecado; e nesse sentido pode e deve ser temido, pois pode infligir-nos um mal em castigo de nossas culpas. A culpa não vem de Deus, mas do homem que se afasta d'Ele; a pena, sim, é justa e vem de Deus.

Existem quatro espécies de temor: (1) Temor mundano — que não vacila em ofender a Deus para evitar um mal temporal (como apostatar da fé para evitar tormentos); é pecaminoso. (2) Temor servil — proprio do servo que serve ao senhor por medo do castigo; é mau se o medo do castigo é a causa única de evitar o pecado (seruil mente servil), mas aceitável se acompanha a causa principal (o temor de ofender a Deus), sendo então o chamado dolor de atrição. (3) Temor filial imperfeito (inicial) — evita o pecado porque separaria de Deus; ainda leva em conta o próprio castigo (a separação do Pai), mas é superior ao servil. (4) Temor filial perfeito — o do filho amoroso que não desobedecerá ao pai unicamente para não desagradá-lo, sem considerar qualquer pena; é o temor que exclama: "Ainda que não houvesse céu, eu te amaria."

Só o amor filial perfeito — e o filial imperfeito em suas manifestações iniciais, que não difere substancialmente do perfeito — constitui o dom do Espírito Santo. À medida que a caridade cresce, o temor inicial se purifica, perdendo o elemento servil e fixando-se unicamente na culpa como ofensa a Deus. A escala espiritual, portanto, vai do temor servil ao temor filial imperfeito, e deste ao temor filial perfeito — o dom autêntico.

Definição: O dom do temor é um hábito sobrenatural pelo qual o justo, sob o instinto do Espírito Santo e dominado por um sentimento reverencial perante a majestade de Deus, adquire docilidade especial para afastar-se do pecado e submeter-se totalmente à vontade divina.

Modo deiforme: O modelo divino do dom do temor é a santidade infinita de Deus — seu afastamento absoluto de todo mal, que comunica aos homens e anjos que "tremem" diante d'Ele. O Espírito Santo transmite ao fundo das almas algo da infinita detestação do pecado que existe no próprio Deus.

Virtudes relacionadas: O dom de temor relaciona-se especialmente com a esperança (destruindo a presunção e fundando a esperança no auxílio divino, não nas próprias forças), com a temperança (reprimindo as tendências carnais desordenadas), com a religião (levando o culto a Deus à máxima perfeição por reverência filial) e com a humildade (fazendo vislumbrar o contraste entre a grandeza infinita de Deus e a própria miséria).

Efeitos no alma: (1) Vivo sentimento da grandeza e majestade de Deus, suscitando adoração profunda, cheia de reverência e humildade; (2) grande horror ao pecado e vivíssima contrição; (3) vigilância extrema para evitar as menores ocasiões de ofender a Deus; (4) desapego perfeito de tudo o criado. Uma alma em que o dom de temor opera com plenitude começa a experimentar a maravilhosa paradoxo do Evangelho: quanto mais profundamente sente o abismo entre a grandeza divina e sua própria miséria, tanto mais firmemente repousa na misericórdia e paternidade divinas — porque o temor filial perfeito exclui a presunção mas não exclui a confiança; antes, a fundamenta nas obras de Deus em vez de nas próprias forças.

Bem-aventuranças e frutos: Correspondem ao dom de temor as bem-aventuranças dos pobres de espírito e dos que choram. Os frutos: modéstia, continência e castidade.

Vícios opostos: A soberbia se opõe ao dom de temor mais radicalmente ainda do que à virtude da humildade, pois o dom exclui até a raiz e o princípio do orgulho. Indiretamente opõe-se-lhe também a presunção.

Meios de fomentar o dom: Meditar frequentemente na infinita grandeza e majestade de Deus; tratar a Deus com confiança filial, mas cheia de reverência; meditar na infinita malícia do pecado; praticar mansidão e humildade no trato com o próximo; pedir frequentemente ao Espírito Santo o temor reverencial de Deus, "o princípio da sabedoria."


Capítulo 9 — O Dom da Fortaleza

O dom da fortaleza, segundo na escala ascendente, tem por missão primária perfeccionar a virtude infusa do mesmo nome e, secundariamente, robustecer todas as demais virtudes para o exercício heroico.

Definição: O dom da fortaleza é um hábito sobrenatural que robustece a alma para praticar, por instinto do Espírito Santo, toda espécie de virtudes heroicas com invencível confiança em superar os maiores perigos ou dificuldades que possam surgir.

Distinção entre virtude e dom: A virtude cardinal da fortaleza tem seus limites na potência humana; o dom, ao contrário, apoia-se na potência divina — "com meu Deus transpasso a muralha" (Sl 18,30). A virtude proporciona coragem para afrontar em geral os obstáculos, mas não infunde a confiança de que os superará todos; o dom, sim. A virtude não se estende igualmente a toda espécie de dificuldades; o dom estende-se a tudo. Quem age pelo dom pode exclamar com São Paulo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4,13). A diferença não é apenas de grau, mas de natureza: a virtude age ao modo humano; o dom ao modo divino.

Importância e necessidade: O dom é absolutamente necessário: (a) para a perfeição da virtude cardinal da fortaleza, arrancando da alma todo motivo de temor ou indecisão; (b) para a perfeição de todas as demais virtudes infusas, pois só a atuação heroica contínua e jamais desmentida supera as forças humanas; (c) em certos momentos, até para permanecer em estado de graça, pois situações imprevisíveis em que o pecado ou o heroísmo é questão de um instante requerem a intervenção rápida dos dons de conselho e fortaleza.

Efeitos na alma: (1) Energia inquebrantável na prática da virtude — Santa Teresa o resumiu: "Uma grande e muito determinada determinação de não parar até chegar à perfeição, venha o que vier, suceda o que suceder... ainda que se afunde o mundo." (2) Destruição completa da tibieza, que é a tuberculose da alma. (3) Intrepidez e valentia diante de todo tipo de perigo — como os apóstolos que, cobardes na Paixão, se tornaram invencíveis após Pentecostes, proclamando a fé diante dos que os flagelavam e saindo "contentes e alegres de ter sofrido aquele ultraje pelo nome de Jesus" (At 5,41). (4) Capacidade de suportar os maiores dolores com gozo e alegria — Santa Teresinha do Menino Jesus disse: "Cheguei a não poder sofrer, porque tudo me é doce." (5) O "heroísmo do pequeno" — ser obstinadamente fiel ao dever de cada dia, em todos os seus detalhes mínimos, sem nunca permitir a menor infração voluntária.

Bem-aventurança e frutos: Corresponde a quarta bem-aventurança — "bem-aventurados os que têm fome e sede de santidade" (Mt 5,6) — pois desejar santificar-se com verdadeira fome e sede é extremamente árduo e difícil. Os frutos correspondentes são a paciência (para suportar heroicamente os sofrimentos) e a longanimidade (para não desfalecernos na prática prolongada do bem).

Vícios opostos: O temor desordenado (timidez) e certa flacidez natural, que provém do amor à própria comodidade e impede de empreender grandes coisas pela glória de Deus. Royo Marín observa que esses vícios são particularmente insidiosos porque muitas vezes se disfarçam de prudência ou de "realismo" — mas na realidade não são senão apego à própria segurança. O cristão que não arrisca nada por Deus nunca crescerá nos dons; e a flacidez que não quer a cruz acabará encontrando inevitavelmente cruzes maiores e mais amargas, sem os méritos e consolações que a cruz abraçada voluntariamente traz.

Meios de fomentar o dom: Acostumar-se ao cumprimento exato do dever apesar de todas as repugnâncias; não pedir a Deus que tire a cruz, mas que dê forças para carregá-la santamente; praticar, com valentia ou fraqueza, mortificações voluntárias nos pequenos detalhes da vida diária; buscar na Eucaristia — "o pão dos fortes" — a fortaleza para a alma.

Capítulo 10 — O Dom da Piedade

O terceiro dom em escala ascendente é o da piedade, que tem por missão fundamental perfeccionar a virtude infusa do mesmo nome — derivada da virtude cardinal da justiça —, imprimindo às nossas relações com Deus e com o próximo o sentido filial e fraterno próprio dos filhos de uma mesma família. Se o temor nos mantém longe do pecado e a fortaleza nos dá coragem para perseverar no bem, a piedade transforma radicalmente o motivo interior da ação: em vez de cumprir deveres por obrigação ou medo, cumprimos por amor filial.

Definição: O dom da piedade é um hábito sobrenatural infundido por Deus com a graça santificante para excitar em nossa vontade, por instinto do Espírito Santo, um afeto filial para com Deus considerado como Pai, e um sentimento de fraternidade universal para com todos os homens enquanto irmãos nossos e filhos do mesmo Pai que está nos céus.

Observações importantes: (a) O dom reside na vontade como potência da alma. (b) Distingue-se da virtude infusa homônima em que esta age com modalidade humana, regulada pela razão iluminada pela fé, enquanto o dom o faz por instinto do Espírito Santo — com modalidade divina, incomparavelmente mais perfeita. (c) O dom de piedade estende-se a todos os homens enquanto filhos do mesmo Pai; perfecciona a virtude da religião no máximo; e eleva todas as exigências da justiça e suas virtudes afins, cumprindo-as por motivo mais nobre: o de deveres para com irmãos, filhos e familiares de Deus.

Importância: O dom de piedade é absolutamente necessário para perfeccionar até o heroísmo a matéria da justiça e suas derivadas. Quando o dom atua, o culto a Deus e o serviço ao próximo se cumprem quase sem esforço, com delicadeza exquisita — pois trata-se do serviço do Pai, não mais do Deus de tremenda majestade. Toda a criação se converte em "casa do Pai", onde cada coisa fala d'Ele e de sua infinita ternura — como Francisco de Assis, que se abraçava apaixonadamente a uma árvore porque era "irmã sua em Deus." A diferença entre a justiça fria e a piedade calorosa é a diferença entre um contrato e uma família: a letra da lei versus o espírito do amor.

Efeitos na alma:

  1. Grande ternura filial para com o Pai celestial. Santa Teresinha, ao repetir o Pai-nosso, não podia conter as lágrimas: "É tão doce chamar Deus de nosso Pai!" Dom Columba Marmión centrava toda a sua vida espiritual nessa filiação divina adotiva, pedindo o Espírito de adoção a cada Gloria Patri.

  2. Adoração do mistério da paternidade divina intratrinitária. Nas manifestações mais elevadas do dom, a alma penetra no mistério da geração eterna do Verbo e contempla a divina paternidade no seio da Trindade Beatíssima, sentindo a necessidade de aniquilar-se, calar e amar.

  3. Abandono filial nos braços do Pai celestial. A alma não pede nada nem rejeita nada em relação à saúde ou doença, vida longa ou curta, consolações ou aridez; abandona-se totalmente nas mãos de Deus, pedindo apenas glorificá-lo com todas as suas forças.

  4. Ver no próximo um filho de Deus e irmão em Jesus Cristo. As almas dominadas por esse dom amam a todos com apaixonada ternura, vendo neles irmãos queridíssimos em Cristo. Prestam-lhes toda espécie de obras de misericórdia considerando-os como o próprio Cristo — e o fazem com tanta naturalidade que se maravilhariam se alguém o elogiasse: "Mas é meu irmão!", diriam simplesmente.

  5. Amor e devoção às pessoas e coisas relacionadas com a paternidade de Deus — a Santíssima Virgem Maria, os anjos e santos (irmãos mais velhos), as almas do purgatório (irmãs que sofrem), o papa (pai de toda a cristandade), os superiores, a pátria, a Sagrada Escritura (carta do Pai enviada do céu) e os vasos sagrados.

Bem-aventuranças e frutos: Relacionam-se com o dom de piedade as bem-aventuranças dos mansos, dos que têm fome e sede de justiça e dos misericordiosos. Os frutos diretamente atribuídos são a bondade e a benignidade; indiretamente, a mansidão.

Vício oposto: A dureza de coração, nascida do amor desordenado de si mesmo, que faz o homem insensível aos interesses de Deus e às misérias do próximo. P. Lallemant descreve com vigor essa dureza, que se manifesta ao ver as ofensas de Deus sem lágrimas e as misérias do próximo sem compaixão, ao não querer incomodar-se para ajudar aos outros. Em seu extremo, essa dureza chega à completa insensibilidade espiritual — o que São Paulo chama "coração endurecido" (Ef 4,18) — em que o cristão vive como pagão, ignorante da paternidade divina que o Batismo lhe conferiu.

Meios de fomentar o dom: Cultivar o espírito de filhos adotivos de Deus; cultivar a fraternidade universal; ver todas as coisas, mesmo materiais, como pertencentes à casa do Pai; cultivar o abandono total nas mãos de Deus.


Capítulo 11 — O Dom do Conselho

Em 25 de julho de 1956, o naufrágio do Andrea Doria comoveu o mundo inteiro. Causa: um descuido do timoneiro que não soube virar com rapidez suficiente. Royo Marín usa essa imagem para ilustrar os acidentes que ocorrem todo dia nas almas por falta de direção e intuição — que a virtude da prudência, e sobretudo o dom do conselho, vêm corrigir. O naufrágio de muitas vidas espirituais se explica não por falta de boa vontade, mas por falta dessa luz instantânea que guia nos momentos decisivos.

Definição: O dom do conselho é um hábito sobrenatural pelo qual a alma em graça, sob a inspiração do Espírito Santo, intui retamente, nos casos particulares, o que convém fazer em ordem ao fim último sobrenatural.

Observações: (a) O Espírito Santo é a causa motora única do dom, enquanto a alma colabora como causa instrumental através da virtude da prudência. (b) A prudência sobrenatural julga retamente segundo a razão iluminada pela fé (modo discursivo); o dom do conselho intui rapidamente o que se deve fazer por instâncias inteiramente divinas (modo intuitivo). Por isso seus atos se realizam com prontidão e como por instinto, sem o trabalho lento e laborioso do discurso racional.

Importância e necessidade: É indispensável para: (a) perfeccionar a virtude da prudência, especialmente em casos repentinos, imprevistos e difíceis que requerem solução ultrarrápida; (b) conciliar exigências que parecem contraditórias — suavidade com firmeza, guardar um segredo sem faltar à verdade, vida interior com apostolado, carinho com castidade, prudência da serpente com simplicidade da pomba.

Efeitos na alma:

  1. Preserva do perigo de uma falsa consciência. Quase não há paixão desordenada que não possa se justificar invocando algum princípio de moral mal aplicado. Só o dom de conselho, superando as luzes da razão turvada pela paixão, dita com segurança inapelável o que se deve fazer. Por isso ninguém mais necessita desse dom do que os sábios e teólogos, tão facilmente iludidos.

  2. Resolve, com inefável segurança, situações difíceis e imprevistas. O santo Cura d'Ars resolvia no confessionário, com admirável segurança e acerto, casos difíceis de moral que enchiam de espanto os teólogos mais eminentes.

  3. Inspira os meios mais oportunos para governar santamente os demais. Supõe saber conciliar o afeto filial dos súditos com a energia no cumprimento da lei, a benignidade com a justiça, conseguindo que os súditos cumpram seu dever por amor.

  4. Aumenta extraordinariamente a docilidade e submissão aos superiores legítimos. Paradoxalmente, as almas mais governadas pelo Espírito Santo são as mais dóceis e submissas. São Paulo cai do cavalo mas Ananias, escolhido por Deus, é quem lhe dirá o que fazer. Santa Teresa obedecia a seus confesores mesmo quando o Senhor lhe mandava outra coisa, e o próprio Senhor louvava sua conduta: "Diga-lhe que obedeça... Eu farei que a verdade seja entendida."

Bem-aventuranças e frutos: San Agostinho atribui ao dom do conselho a bem-aventurança dos misericordiosos (Mt 5,7), admitida por Santo Tomás apenas em sentido diretivo, pois nada é tão útil para a salvação como a misericórdia para com os demais. Frutos correspondentes: bondade e benignidade.

Vícios opostos: A precipitação no agir (seguindo o impulso da atividade natural sem dar lugar a consultar o Espírito Santo) e a temeridade (excesso de confiança em si mesmo). Por excesso, a lentidão excessiva após uma determinação legítima. O discernimento espiritual exige esse equilíbrio delicado: nem a precipitação que não ouve o Espírito, nem a paralisia que, por medo de errar, nunca age.

Meios de fomentar o dom: Profunda humildade para reconhecer a própria ignorância e demandar as luzes do alto; acostumar-se a proceder sempre com reflexão e sem precipitação; atentar em silêncio ao Mestre interior; extremar a docilidade e obediência aos superiores legítimos, imitando Santa Teresa, que obedecia a seus confessores como se Deus mesmo lhe houvesse mandado.

Capítulo 12 — O Dom da Ciência

O dom da ciência é o quinto em escala ascendente. Perfecciona a virtude da fé num aspecto distinto do que o dom de entendimento — não penetrando as verdades reveladas em si mesmas, mas julgando retamente as coisas criadas em relação ao fim último sobrenatural.

Definição: O dom da ciência é um hábito sobrenatural infundido por Deus com a graça santificante, pelo qual a inteligência do homem, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, julga retamente das coisas criadas em ordem ao fim último sobrenatural.

Não se trata da ciência humana ou filosófica, que deduz por raciocínio natural, nem da teologia, que deduz das verdades reveladas por discurso natural. Trata-se de um conhecimento sobrenatural procedente de uma iluminação especial do Espírito Santo, que nos faz descobrir e apreciar retamente o nexo das coisas criadas com o fim último sobrenatural. Em brevíssima síntese: é a reta estimação da presente vida temporal em ordem à vida eterna.

Distinção com outros dons: O dom de entendimento capta e penetra as verdades reveladas por profunda intuição sobrenatural (simples apreensão, sem emitir juízo); o dom de ciência julga retamente das coisas criadas em ordem ao fim sobrenatural; o dom de sabedoria julga das coisas divinas. A sapiência e a ciência têm algo em comum: conhecer a Deus e às criaturas. Mas quando se conhece a Deus pelas criaturas (ascendendo das causas segundas à causa primeira), é um ato de ciência; quando se conhecem as coisas humanas pelo gosto que se tem de Deus e se julga os seres criados pelos conhecimentos que se tem do primeiro ser, é um ato de sabedoria.

Importância e necessidade: O dom de ciência é absolutamente necessário para que a fé chegue à sua plena expansão. Sem esse instinto sobrenatural, atraídos e seduzidos pelos encantos das coisas criadas e ignorando o modo de relacioná-las com o mundo sobrenatural, facilmente erraríamos o caminho. O dom nos dá o reto julgamento, segundo os princípios da fé, do uso das criaturas, de seu valor, utilidade ou perigos em ordem à vida eterna — a "ciência dos santos": dedit illi scientiam sanctorum (Sb 10,10).

Efeitos na alma:

  1. Ensina a julgar retamente das coisas criadas em ordem a Deus. Um duplo movimento se produz: a experiência do vazio da criatura (sua nada); e a descoberta da pegada de Deus nas coisas criadas. O dom de ciência arrancava lágrimas a Santo Domingos ao pensar na sorte dos pecadores, enquanto o espetáculo da natureza inspirava a São Francisco o Cântico ao Sol. Para Santa Teresa, a contemplação de coisas criadas remetia facilmente a Deus por comparações e semelhanças admiráveis.

  2. Guia certeramente sobre o que se deve crer ou não crer. As almas em quem esse dom atua têm instintivamente o sentido da fé. Sem terem estudado teologia, percebem imediatamente se uma devoção, uma doutrina ou um conselho está de acordo ou em oposição com a fé — com uma segurança inquebrantável que não sabem explicar. Santa Teresa nunca pôde aceitar a errônea doutrina de que, em certos estados elevados de oração, convinha prescindir da consideração da humanidade de Cristo.

  3. Faz ver com prontidão e certeza o estado da própria alma. Nossos atos interiores, os movimentos secretos do coração, suas qualidades, bondade e malícia, princípios, motivos e fins — tudo aparece transparente. Santa Teresa dizia: "Em aposento onde entra muito sol, não há teia de aranha escondida."

  4. Inspira o modo mais acertado de conduzir-se com o próximo em ordem à vida eterna. O pregador conhece o que deve dizer aos ouvintes e como premi-los; o diretor conhece o estado das almas que dirige. São Vicente Ferrer, que se abandonava ao Espírito Santo para preparar e pronunciar seus sermões, provocava efeitos prodigiosos. Certo dia em que se preparou com maior estudo humano, o resultado foi decepcionante. Ao ser apontada a diferença entre os dois sermões, respondeu: "É que ontem pregou frei Vicente, e hoje foi o Espírito Santo."

  5. Desprende das coisas da terra. À luz do dom de ciência, a criação aparece como um livro aberto onde a nada das criaturas e o todo do Criador se revelam sem esforço. Santa Teresa, ao contemplar as joias de sua amiga doña Luísa de la Cerda, não conseguia entender como as pessoas podiam estimar "uns cristalitos que brilham um pouco mais que os comuns."

  6. Ensina a usar santamente das criaturas. As belezas criadas são reflexo pálido da beleza divina. São Paulo de la Cruz extasiava-se diante das flores de seu jardim; São Francisco abraçava uma árvore com apaixonada ternura.

  7. Enche de contrição e arrependimento dos erros passados. À luz do dom, a nada das criaturas se descobre sem esforço — e ao recordar épocas de apego a elas, surge vivíssimo arrependimento.

Bem-aventurança: Corresponde a terceira bem-aventurança — "Bem-aventurados os que choram" — pelos erros do passado e pelo vazio das criaturas; o prêmio (a consolação) começa nesta vida e alcança sua plenitude na outra. Frutos: fé (certeza especial sobre as verdades sobrenaturais) e gozo espiritual.

Vício contrário: A ignorância — culpável quando se ocupa voluntariamente o espírito em coisas vãs, ou por vã presunção de confiar demais nas próprias luzes, pondo obstáculo às iluminações do Espírito Santo.

Meios de fomentar o dom: Considerar a vaidade das coisas terrenas; relacionar com Deus todas as coisas criadas; opor-se energicamente ao espírito do mundo; ver a mão da Providência em todos os acontecimentos prósperos ou adversos; preocupar-se muito com a pureza de coração.


Capítulo 13 — O Dom do Entendimento

O dom de entendimento — assim como o de ciência, mas em outro aspecto — perfecciona a virtude teologal da fé. Enquanto o de ciência julga as coisas criadas em ordem ao fim sobrenatural, o de entendimento penetra profunda e intuitivamente as próprias verdades reveladas.

Definição: O dom de entendimento é um hábito sobrenatural, infundido por Deus com a graça santificante, pelo qual a inteligência do homem, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, se torna apta para uma penetrante intuição das coisas reveladas e até das naturais em ordem ao fim último sobrenatural.

A diferença capital com a virtude da fé está na modalidade: a fé proporciona conhecimento das verdades sobrenaturais ao modo humano (discursivo, laborioso), enquanto o dom as faz penetrar de modo intuitivo, divino, suprarracional — a contemplação infusa de que falam os místicos: simplex intuitus veritatis. O dom se distingue dos outros dons intelectivos (sabedoria, ciência, conselho) em que sua função é a penetração profunda em plan de simples apreensão (sem emitir juízo), enquanto aos outros cabe o reto juízo.

Necessidade: O conhecimento humano é de suyo discursivo, por composição e divisão. De essa condição geral não escapam as virtudes infusas ao funcionar segundo a razão. Mas sendo o objeto primário da fé o próprio Deus — a Verdade primeira absolutamente simples —, o modo discursivo é inadequado. A fé é de suyo intuitiva, não discursiva, e por isso as verdades de fé só podem ser captadas em toda a sua perfeição (sempre no claroescuro do mistério) pelo golpe de vista intuitivo e penetrante do dom de entendimento. Isso significa que a mística (regime habitual dos dons) é o estado normal que exige a graça para desenvolver todas as suas virtualidades divinas — o que supõe que o estado místico não é algo anormal e extraordinário, mas a atmosfera natural da vida cristã perfeita.

Seis modos de penetração: Santo Tomás identifica seis formas pela quais o dom de entendimento nos faz penetrar no mais hondo dos mistérios:

  1. Ver a substância das coisas ocultas sob os acidentes. Os místicos percebem a realidade divina sob os véus eucarísticos: "Olha-me e me olha", como disse ao Cura d'Ars aquele simples aldeão.

  2. Descobrir o sentido oculto das Escrituras. O Senhor "abriu a inteligência" aos discípulos de Emaús para entenderem as Escrituras. Os místicos descobrem de súbito o sentido profundo de uma sentença que ilumina toda a sua vida — o "cantarei eternamente as misericórdias do Senhor" de Santa Teresa; o "se alguém é pequenino, que venha a mim" de Santa Teresinha; o "louvor de glória" de Irmã Isabel da Trindade.

  3. Manifestar o significado misterioso das semelhanças e figuras. São Paulo viu a Cristo na pedra que jorrava água viva para os israelitas no deserto.

  4. Descobrir sob as aparências sensíveis as realidades espirituais. Os santos experimentam grande veneração pela menor cerimônia da Igreja — Santa Teresa diria: "por qualquer verdade da Sagrada Escritura me poria a morrer mil mortes."

  5. Contemplar os efeitos contidos nas causas. Na dura labor da ciência humana, de repente tudo se ilumina sob um impulso do Espírito: Cristo-Sacerdote, único Mediador; o mistério da Virgem corredentora; a conciliação da unidade de essência com a trindade de pessoas numa deidade que ultrapassa infinitamente toda investigação criada.

  6. Ver as causas através dos efeitos. Nas menores circunstâncias, o dom revela a Deus e sua causalidade onipotente por simples olhar comparativo e intuição "à maneira de Deus."

Efeitos gerais: As almas em que o dom atua perdem o instinto do humano para guiar-se pelo instinto do divino. Sua maneira de ser, pensar, falar e reagir desconcerta o mundo. Santo Tomás escreveu: "Nesta mesma vida, purificado o olho do espírito pelo dom de entendimento, pode-se ver a Deus de certo modo."

Bem-aventurança: Corresponde a sexta bem-aventurança — "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" — tanto pelo mérito (pureza da mente, depurada dos fantasmas corporais e erros) quanto pelo prêmio (a visão de Deus imperfecta nesta vida, perfeita no céu). Frutos: fides (certeza inquebrantável da fé) e gaudium (gozo espiritual).

Vícios contrários: A cegueira espiritual (privação total da visão) e o embotamento do sentido espiritual (miopía), procedentes principalmente da luxúria e da gula, que fixam excessivamente a mente nas coisas corporais.

Meios de fomentar o dom: Avivar a fé; perfecta pureza de alma e corpo; recolhimento interior; fidelidade à graça; invocar o Espírito Santo — a sequência Veni, Sancte Spiritus e o hino Veni, Creator devem ser, depois do Pai-nosso e da Ave Maria, as orações prediletas das almas interiores, associando sempre as súplicas ao Coração Imaculado de Maria, "esposa fidelíssima" do Espírito Santo.

Capítulo 14 — O Dom da Sabedoria

O dom da sabedoria é o mais perfeito e excelente de todos os dons — como a caridade é a mais perfeita de todas as virtudes, ele é seu dom correspondente. Chegando ao cume da escala, tudo o que se disse dos outros dons converge aqui em síntese deslumbrante.

Definição: O dom da sabedoria é um hábito sobrenatural, inseparável da caridade, pelo qual julgamos retamente de Deus e das coisas divinas por suas últimas e altíssimas causas, sob o instinto especial do Espírito Santo, que nos as faz saborear por certa connaturalidade e simpatia.

Palavras-chave da definição:

  • Inseparável da caridade: por essa conexão com a caridade — que reside na vontade — possuem o dom de sabedoria (como hábito) todas as almas em graça, sendo incompatível com o pecado mortal.
  • Julgamos retamente: ao contrário do entendimento (simples apreensão), a sabedoria emite juízo; mas esse juízo recai sobre as coisas divinas, não as criadas (domínio da ciência). Supõe necessariamente a caridade, pois julga por connaturalidade com o divino.
  • De Deus e das coisas divinas: é o objeto próprio do dom — o próprio Deus, do qual nos dá um conhecimento saboroso e experimental. A partir desse conhecimento inefável, a alma julga todas as demais coisas por razões divinas.
  • Por suas últimas e altíssimas causas: há graus de sabedoria — vulgar, científica, filosófica, teológica; o dom de sabedoria supera todos e só a visão beatífica e a Sabedoria incriada lhe são superiores.
  • Que nos as faz saborear: nota típica do dom — conhecimento sabroso e experimental. A palavra "sabedoria" significa, simultaneamente, saber e sabor. Os que a experimentam compreendem o Salmo 33,9: "Goste e veja quão suave é o Senhor."

Necessidade: Sem o dom de sabedoria, a caridade — a mais divina das virtudes — fica "sufocada" numa atmosfera humana que lhe é quase irrespirável. Submetida ao pobre modo humano, move-se a ras do chão, quando tem asas para voar ao céu. Só quando começa a receber a influência do dom, que lhe proporciona a atmosfera e modalidade divina que por natureza lhe são devidas, a caridade começa verdadeiramente a "respirar à vontade" e cresce rapidamente, levando a alma às regiões da vida mística até o cume da perfeição. Dois corolários: (1) o estado místico é a atmosfera normal que a graça reclama para desenvolver todas as suas virtualidades — é o que deveria ser normal em todo cristão, e de fato o é em todo cristão perfeito; (2) uma atuação dos dons ao modo humano seria impossível, absurda e inútil.

Efeitos na alma:

  1. Dá aos santos o sentido divino de eternidade com que julgam todas as coisas. Passando por cima das causas segundas, alcançam imediatamente a causa primeira. Um insulto, uma calúnia — e no ato se remontam a Deus, que o permite para exercitá-los na paciência e aumentar sua glória. Não chamam desgraça ao que os homens costumam chamar (doença, perseguição, morte), mas unicamente ao que o é diante de Deus (pecado, tibieza, infidelidade). Santo Tomás o possuiu em grau eminente — seu acerto tão grande e universal não pode explicar-se suficientemente por uma sabedoria humana, por mais elevada que seja.

  2. Faz-lhes viver de modo inteiramente divino os mistérios da fé. O dom é "a mirada do Verbo espirando o Amor comunicada a uma alma que julga todas as coisas por suas causas mais altas, mais divinas." Introduzida pela caridade na intimidade das Pessoas divinas e como no coração da Trindade, a alma divinizada contempla tudo a partir desse centro indivisível. É a contemplação ao modo deiforme, "à luz da experiência da deidade, de cuja inefável doçura o alma experimenta em si mesma" (Santo Tomás).

  3. Faz-lhes viver em sociedade com as três Pessoas divinas, mediante participação inefável de sua vida trinitária. Enquanto o dom de ciência eleva do criado ao Criador, e o entendimento penetra os mistérios divinos de fora e de dentro, o dom de sabedoria "não sai jamais do coração mesmo da Trindade." Tudo lhe surge nesse centro indivisível. A criação, a redenção, a ordem hipostática, o mal mesmo ordenado à maior glória da Trindade — tudo se lhe apresenta à puríssima luz do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Irmã Isabel da Trindade, segundo o P. Philipon, é o exemplo mais característico desse dom em nossos dias: arrebatada até o seio da Trindade Beatíssima, aí estabeleceu sua morada permanente, e de lá contemplava e julgava todos os acontecimentos com uma paz que "nenhuma prova conseguia perturbar."

  4. Leva ao heroísmo a virtude da caridade. Liberta de suas ataduras humanas, a caridade adquire proporcões gigantescas. Seu efeito mais impressionante é a morte total ao próprio eu — um amor a Deus purísssimo, por sua infinita bondade, sem mistura de interesse. Santa Teresinha disse: "Se, por impossível, pudesse amar mais a Deus no inferno do que no céu, preferiria os tormentos eternos." No trato com o próximo, a caridade alcança paralelamente uma perfeição sublime — em cada pessoa veem a Cristo; servem-nos com abnegação heroica cheia de naturalidade e simplicidade. São Francisco de Asís abraçou apaixonadamente uma árvore, querendo estreitar num abraço imenso toda a criação saída das mãos de Deus.

  5. Proporciona a todas as virtudes o último traço de perfeição e acabamento. A influência do dom sobre a caridade irradia-se a todas as virtudes, de que ela é a forma. Morto definitivamente o egoísmo, perfeita em toda espécie de virtudes, a alma se instala no cume da montanha da santidade, onde está escrito (São João da Cruz): "Só mora neste monte a honra e glória de Deus."

Bem-aventurança e frutos: Corresponde a sétima bem-aventurança — "Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus" — pois a paz é "tranquilidade da ordem" e instaurar a ordem pertence à sabedoria. Frutos: caridade, gozo espiritual e paz.

Vício oposto: A estultícia ou necedad espiritual — embotamento do juízo para as coisas de Dios. Quando voluntária por imersão nas coisas terrenas, é verdadeiro pecado. Procede principalmente da luxúria (que produz cegueira espiritual) e da ira.

Meios de fomentar o dom: Esforçar-se em ver todas as coisas do ponto de vista de Deus; combater a sabedoria do mundo, que é estultícia diante de Deus; não apegar-se demasiado às coisas honestas do mundo; não agarrar-se às consolações espirituais, mas passar através delas até Deus — buscando o "Deus das consolações", não as "consolações de Deus."


Capítulo 15 — A Fidelidade ao Espírito Santo

O livro culmina com o tema que dá vida e coerência a tudo o que precede: a fidelidade às inspirações do Espírito Santo. Sem ela, todos os dons, virtudes e sacramentos ficam como que em suspenso — a ação santificadora do Espírito Santo paralisa-se ou diminui ao encontrar resistência na alma.

Natureza da fidelidade ao Espírito Santo: É a lealdade ou docilidade em seguir as inspirações do Espírito Santo em qualquer forma que se manifestem. São Francisco de Sales define inspiração como "todos os atrativos, movimentos, reproches e remorsos interiores, luzes e conhecimentos que Deus obra em nós, prevenindo nosso coração com suas bênçãos, a fim de nos despertar, excitar, empurrar e atrair às santas virtudes, ao amor celestial." O Espírito Santo obra sempre segundo seu beneplácito: "O Espírito sopra onde quer" (Jo 3,8). Umas vezes ilumina somente, outras move somente, outras — as mais frequentes — ilumina e move ao mesmo tempo.

Importância e necessidade: A graça atual é para a alma em estado sobrenatural o que o ar é para a respiração no plano natural: absolutamente indispensável. Todo ato salutar exige uma moção prévia de graça atual. Mas mais ainda: na economia ordinária e normal da graça, a Providência tem subordinadas as graças posteriores ao bom uso das anteriores. Uma simples infidelidade à graça pode interromper o rosário das graças que Deus nos teria concedido sucessivamente — causando uma perda irreparável. No céu veremos como a imensa maioria das santidades frustradas se malogrou por séries de infidelidades à graça, porventura veniais em si mesmas, mas plenamente voluntárias.

O P. Garrigou-Lagrange compara a graça suficiente à flor e a graça eficaz ao fruto: se resistimos à graça suficiente, ficamos privados da graça eficaz, como o granizo destrói a flor e o fruto não chega a amadurecer. A Providência tem planos magníficos sobre cada alma, mas é obrigada a modificá-los continuamente pelas infidelidades humanas — reduzindo o grandioso poema da vida ao que poderia ter sido.

Eficácia santificadora: Entre as práticas que dependem da atividade humana, nenhuma ocupa lugar mais alto que a fidelidade perfeita às inspirações do Espírito Santo. Um antigo autor afirma: "Que alguém faça a prova, durante três meses, de não recusar absolutamente nada a Deus, e verá que profunda mudança experimentará em sua vida." A oleada de graças vai sempre crescendo: "ao princípio, como orvalho intermitente; depois, como um regato; logo, como uma corrente; enfim, como um caudaloso e principal rio" (Monsenhor Saudreau).

Modo de praticar a fidelidade — três passos:

1. Atenção às inspirações. O Espírito Santo habita dentro de nós (1Cor 6,19), mas não o ouvimos por três razões: (a) habitual dissipação — Deus está dentro e nós vivemos fora; ele é discreto, não se impõe à força; se descobre que alguém se desveste das ninharias e busca o silêncio, aproxima-se; (b) falta de mortificação — "o homem animal não percebe as coisas do Espírito de Deus" (1Cor 2,14); é indispensável o espírito de mortificação e o agere contra inculcado por Santo Inácio; (c) afeições desordenadas — "quem não estiver totalmente livre das criaturas, não poderá tender livremente às coisas divinas" (Kempis).

2. Discernimento dos espíritos. Critérios para conhecer as inspirações divinas: (a) santidade do objeto — o demônio nunca impele à virtude; (b) conformidade com o próprio estado; (c) paz e tranquilidade do coração — São Francisco de Sales: "o divino Espírito é violento, mas com violência doce, suave e apacível"; o demônio, ao contrário, alborota e enche de inquietação; (d) obediência humilde — "tudo é seguro na obediência e tudo é suspeito fora dela"; (e) julgamento do diretor espiritual — nas coisas de maior importância, o Espírito Santo inclina sempre a consultar os superiores ou o diretor.

3. Docilidade na execução. Consiste em seguir a inspiração da graça no mesmo instante em que se produz, sem fazer esperar um segundo ao Espírito Santo. A natureza opõe três obstáculos: (a) a tentação da dilação — "Farei amanhã"; muitas almas chegam ao fim da vida sem nunca ter consentido que o Espírito Santo fosse seu dono absoluto, sempre lhe pedindo para esperar; (b) os recuos da vontade — o medo do sacrifício, a resistência que a natureza apresenta antes de executar aquilo que o Espírito pede; (c) o afã de recuperar o que se deu — como os venezianos que arremessavam ao mar um anel de ouro para simbolizar as bodas com o oceano e depois o mandavam buscar por mergulhadores.

Reparação das infidelidades: Até as maiores infidelidades podem ser reparadas. Se o trem da vida vem com atraso aproximando-se da estação de chegada, é evidente que chegará irremediavelmente atrasado — a menos que o maquinista acelere intensamente antes da chegada. Deus pode acrescentar graças mais abundantes e poderosas para compensar as perdas — mas é preciso pedido perseverante, arrependimento genuíno e generosidade sem reservas. Os dons de Dios são irrevogáveis (Rm 11,29): sua vocação original à santidade não foi revogada, apenas suspensa pelas infidelidades. Removidos os obstáculos, os planos primitivos da Providência se realizarão.

O livro termina com uma magnífica Consagração ao Espírito Santo, oração difundida entre muitas comunidades religiosas, que expressa a entrega total à ação do divino Espírito — pedindo-lhe que seja "preceptor, diretor e mestre" da alma, que "destrua, devore e consuma nos ardores do puro amor tudo o que haja de imperfeito, terreno e humano." A oração resume todo o programa espiritual do livro: uma alma completamente entregue ao Espírito Santo, fiel a suas inspirações, disposta a não lhe negar nada, caminhará com passo seguro — e com velocidade de águia, não de enfermos — rumo às cumes da santidade para as quais foi criada.