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A Imitação da Bem-Aventurada Virgem Maria

Índice

  • Apresentação da Obra e Contexto Histórico
  • Primeira Parte: Os Mistérios Gozosos
    • Capítulo I — Como Imitar Maria
    • Capítulo II — Os Deveres para com Maria
    • Capítulo III — As Virtudes e os Ofícios de um Bom Servo de Maria
    • Capítulo IV — Da Eminente Dignidade de Maria como Mãe de Deus
    • Capítulo V — Os Nossos Deveres para com Maria
    • Capítulo VI — Do Poder e das Prerrogativas de Maria
    • Capítulo VII — Das Glórias e dos Privilégios de Maria
    • Capítulo VIII — Das Belezas e da Ilustração de Maria
    • Capítulo IX — Das Figuras e dos Símbolos de Maria
  • Segunda Parte: Os Mistérios Dolorosos
    • Capítulo X — Da Anunciação e das Prerrogativas de Maria
    • Capítulo XI — Do Piedoso Patrocínio de Maria
    • Capítulo XII — Das Alegrias e Exultações de Maria
    • Capítulo XIII — Das Exultações e dos Tressalhos de Maria
    • Capítulo XIV — Do Amor e da Dor de Maria
    • Capítulo XV — Dos Exemplos e Conselhos de Maria para Buscar e Encontrar Jesus
    • Capítulo XVI — Das Dores e Sofrimentos de Maria
    • Capítulo XVII — Das Lições e Exemplos de Maria no Recolhimento Interior
    • Capítulo XVIII — Como Se Deve Sofrer ao Exemplo de Maria
    • Capítulo XIX — Como Se Deve Servir a Jesus ao Exemplo de Maria
  • Terceira Parte: Os Mistérios Gloriosos
    • Capítulo XX — Do Início da Terceira Parte: A Vida Interior de Maria
    • Capítulo XXI — Da Vida Interior de Maria
    • Capítulo XXII — Das Obras e dos Exemplos de Maria
    • Capítulo XXIII — Como Se Deve Orar e Meditar ao Exemplo de Maria
    • Capítulo XXIV — Da Humildade de Maria
    • Capítulo XXV — Como Se Deve Ir a Jesus por Maria
    • Capítulo XXVI — Da Intercessão Materna de Maria
    • Capítulo XXVII — De Como Maria Salva e Consola
    • Capítulo XXVIII — Da Mediação de Maria
    • Capítulo XXIX — Da Divina Intervenção de Maria
    • Capítulo XXX — Da Eterna Realeza de Maria
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Thomás de Kempis | Compilação de Albin de Cigala


Apresentação da Obra e Contexto Histórico

A Imitação da Bem-Aventurada Virgem Maria é uma compilação extraída das obras de Thomas à Kempis (1380–1471), chanônigo de Colônia e abade do Monte Santa Inês, realizada e traduzida ritmicamente pelo Abade Albin de Cigala, doutor em teologia e filosofia pela Faculdade de Paris. A obra foi aprovada e abençoada pessoalmente pelo Papa Pio X em agosto de 1904, que declarou guardar o volume em sua mesa de trabalho e ler diariamente seu capítulo de leitura espiritual. Em 1908, a tradução recebeu o Grande Prêmio Janin da Academia Francesa, distinção concedida à "melhor tradução de uma obra latina".

O editor-compilador parte de uma constatação paradoxal: Thomas à Kempis, autor do clássico Imitação de Jesus Cristo, nunca menciona a devoção à Virgem Maria naquele livro, embora tenha escrito capítulos inteiros sobre o tema em suas obras esparsas. Cigala identifica que os copistas medievais, ao transcreverem os quatro livros da Imitação, não organizaram os trechos marianos dispersos na vasta produção de Kempis. A presente obra é, portanto, fruto de um esforço de compilação e organização: extraíram-se passagens de escritos como os Solilóquios da Alma, o Enchirídion Monástico, o Vale dos Lírios, as Orações Devotas e outros tratados do autor, formando o que seria naturalmente um Quinto Livro da Imitação, após o tratado sobre a Eucaristia.

A composição da obra respeita o estilo próprio de Kempis: frases rítmicas, asssonantes e frequentemente rimadas, à maneira dos provérbios e dos salmos, diferenciando-o radicalmente da escrita sintática em prosa de Gerson — argumento que Cigala usa também para reafirmar a autoria kempisiana da Imitação de Cristo. O tradutor empregou uma forma mista entre prosa e verso, o "ritmo", para reproduzir em francês o paralelismo binário do original latino, marcando a cadência do pensamento em notas harmoniosas.

A obra divide-se em trinta leituras ou capítulos, organizados segundo os Mistérios do Rosário em três grandes partes: os Mistérios Alegres (capítulos I a X), os Mistérios Dolorosos (capítulos XI a XX) e os Mistérios Gloriosos (capítulos XXI a XXX). Cada capítulo segue uma estrutura tripartite: o texto principal em verso rítmico, extraído diretamente das obras de Kempis; uma Homilia que sintetiza o ensinamento doutrinário e espiritual; e uma Meditação de caráter psicológico e prático, com uma prática concreta e uma "pensée" aforística em latim.

O prefácio do tradutor confessa a origem pessoal e dolorosa da obra: iniciada "em horas de tristeza angustiada", sobre um livro recebido de mão amiga no dia de uma separação, ela foi "testemunha de muitas lágrimas e confidente de muitas consolações". Cigala deseja que a obra fale a todos — adolescentes, jovens, homens maduros, velhos — em suas horas de tristeza, dizendo-lhes: "amai e esperai". Apresenta-se como um novo Mélode, à semelhança do monge himnógrafo Romanus, que não compõe poemas novos, mas reproduz em seu canto as harmonias que escutou — e pede a Deus, como única recompensa de seu trabalho, poder apresentar-se diante d'Ele com o título humilde de Mélode da Imitação.

Primeira Parte: Os Mistérios Gozosos

Capítulo I — Como Imitar Maria

A obra se abre com uma proclamação do autor da Sabedoria: "Muitas jovens acumularam riquezas, mas vós, ó Maria, as superastes a todas em riqueza." Kempis convida o leitor a ser fiel imitador de Jesus na terra e imitador perfeito de Maria, insistindo em que essa imitação exige devoção nas orações, sobriedade nas palavras, reserva nos olhares e disciplina escrupulosa nas obras. Para louvar dignamente Maria, é preciso ser simples como criança de Deus, sem engano, sem inveja, sem crítica, suportando com caridade, grande paciência e humildade tudo o que contraria. A quem sabe oferecer sua vida à Divina Trindade, tudo o que é amargo na terra parece doce e tudo o que parece pesado aparece muito leve — tal é o fruto da memória de Maria e de Jesus.

O capítulo culmina numa prece de beleza litúrgica intensa: o fiel implora a Maria que lhe abra a compaixão maternal e a caridade repleta de doçura, pedindo-lhe uma gota de ternura para poder amá-la de coração puro. Segue-se uma litania poética sobre a saudação angélica: "O céu se alegra e a terra sorri quando o coração diz: Ave Maria. Satanás foge ao longe e todo o inferno treme quando o coração diz: Ave Maria." A tiédez desaparece, o amor reaparece, a esperança jorra, a consolação cresce — tudo ao ritmo da Ave Maria repetida. Kempis conclui: "tão grande é a doçura dessa oração que ela não poderia ser traduzida em vocalização".

A Homilia do capítulo propõe que imitar é reproduzir um modelo. Os modelos de Jesus, Maria e dos Santos são maiores do que qualquer reprodução possível, mas pode-se aproximar deles reproduzindo-lhes a vida. Para praticar a virtude é preciso esforço (virtus); para seguir o vício, basta deixar-se levar (vitium). A Meditação sobre o trabalho da santificação afirma que contemplar um modelo é ciência, reproduzi-lo é arte, e que os dois juntos constituem todo o segredo da vida espiritual: "a dor ensina mais do que o prazer — quem não sofreu, que sabe?"

Capítulo II — Os Deveres para com Maria

O segundo capítulo estabelece a relação do fiel com Maria como mãe, advogada e modelo. Kempis exorta a escolhê-la antes de tudo, saudá-la diariamente com a saudação do Anjo (que lhe é mais grata que qualquer outra) e nunca cessar de invocá-la. A espiritualidade kempisiana adquire aqui caráter de companhia permanente: "Permanecei com Maria, meditai com Maria, alegrai-vos com Maria, chorai com Maria, trabalhais com Maria, velai com Maria." Kempis acompanha o fiel pela inteira vida de Cristo junto com Maria: habitar Nazaré, ir a Jerusalém, procurar Jesus, permanecer junto à Cruz, chorar junto ao sepulcro, ressuscitar e subir ao céu — tudo com Maria.

A Homilia desenvolve os títulos e funções de Maria: como mãe ela consola, sustenta e nutre; como advogada ela aconselha, dirige e defende; como modelo ela exalta e atrai. A Meditação sobre a vida sobrenatural ensina que "viver é subir, elevar-se acima da terra". A vida terrestre não é toda a vida: há a vida da alma, sem a qual o próprio amor não é nada. Maria nos foi dada como modelo e mãe nessa vida nova acrescentada à vida terrestre.

Capítulo III — As Virtudes e os Ofícios de um Bom Servo de Maria

O terceiro capítulo apresenta o retrato interior e exterior do servo fiel de Maria. Interiormente, ele deve ser humilde, paciente, casto, reservado, cheio de mansidão, recolhido e zeloso; o serviço de Maria não deve parecer-lhe longo nem penoso, mas sempre deleitável, alegre e solícito. Kempis assegura que os mais fracos homenagens são acolhidos por Maria com o mesmo apreço que os mais solenes, desde que oferecidos com amor e devoção — pois ela sabe que não podemos dar muito e não exige de seus filhos coisas impossíveis: "Soberana misericordiosa e rainha de mansidão, ela é mãe antes de tudo".

Externamente, o servo deve invocar Jesus e Maria em tudo, recitar frequentemente a Ave, carregar no coração e nos lábios os nomes de Jesus e Maria, e fazer da seguinte invocação sua regra de vida: "Dirigi, ó meu Deus, dirigi sempre o meu caminho em vossa presença." A Homilia distingue entre virtudes — atos meritórios, elãos do coração — e ofícios — ações cumpridas por dever mas sem apego do coração. O servo de Maria deve praticar virtudes, não apenas ofícios. A Meditação sobre a vida ativa sublinha que a vida é como o fogo: só se conserva comunicando-se. Para viver é preciso agir; a vida que flui por si só gera o tédio.

Capítulo IV — Da Eminente Dignidade de Maria como Mãe de Deus

Kempis contempla aqui a grandeza incomparável de Maria como Theotokos, Mãe de Deus. Não há função mais elevada no céu ou na terra do que a maternidade divina; ela confere a Maria prerrogativas divinas e ao mesmo tempo lhe infunde ternuras humanas superiores às das mais amáveis mães da terra. O texto cita Dionísio Areopagita, discípulo de São Paulo, que ao visitar Jerusalém e ver Maria ficou tão impressionado com sua beleza que quis prostrar-se diante dela como diante de uma deusa.

O fiel expressa sua adoração numa prece de joelhos, recordando a alegria exultante do arcanjo Gabriel ao saudar Maria: "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco." A Meditação sobre o bom emprego do tempo afirma que entre o passado que nos foge e o futuro que não nos pertence, existe o presente que apenas possuímos — tempo de ação e dever. Maria é modelo supremo da mulher forte descrita nas Escrituras: Domi mansit, lanam fecit — permaneceu em casa e trabalhou diligentemente.

Capítulo V — Os Nossos Deveres para com Maria

O quinto capítulo exorta o fiel a elevar-se até Deus ao exemplo de Maria, apoiando-se no auxílio poderoso dela e não apenas nas próprias forças, para não ser arrastado para baixo pelas paixões. A imagem central é a de Maria como fortaleza e porto seguro: "Não há em lugar algum porto mais tranquilo do que o seio de Maria." Assim como a fortaleza protege do inimigo e o porto abriga do temporal, a oração ardente à Virgem defende o fraco e acolhe o pobre, o doente, a alma triste, o vacilante e o abandonado. A Homilia distingue entre deveres "doces" — nascidos do coração, como os de um filho para com sua mãe — e deveres amargos. Os deveres para com Maria devem ser todos do primeiro tipo. A Meditação sobre as belezas de Maria convida a contemplar Marie na visão de Dante, que a vê no Paraíso como auréola de ouro, rodeada de estrelas e flores, reunindo tudo que encanta no mundo.

Capítulo VI — Do Poder e das Prerrogativas de Maria

O sexto capítulo exalta o poder de intercessão de Maria junto a seu Filho. Kempis apresenta a Virgem como aquela que obtém de Jesus tudo o que lhe pede pelos fiéis, em especial pelos pobres, pelos enfermos e pelos perseguidos pelo demônio. O fiel que invoca Maria com frequência recebe assurance e consolo, pois ela está sempre pronta a dizer ao seu Filho a palavra de graça em favor de quem sofre. O capítulo lembra que foi Maria quem, nas núpcias de Caná, intercedeu junto a Jesus antes que ele houvesse ainda realizado qualquer milagre — e assim inaugura o ministério público do Salvador. A Homilia trata da natureza da intercessão: diferentemente da mediação de Jesus, que é imolação, a de Maria é intervenção. Mas a intervenção de uma mãe tem uma força que não se recusa: "um sorriso pode quebrar ou transformar uma vida". A Meditação sobre o recurso à oração nos momentos de prova ensina que a alma deve saber identificar o "porto tranquilo" em tempos de tempestade, e que nenhum porto é mais seguro do que Maria.

Capítulo VII — Das Glórias e dos Privilégios de Maria

No sétimo capítulo, Kempis contempla a missão providencial de Maria desde a eternidade: Deus Pai a viu antes de todos os séculos e a criou na terra, nos tempos cumpridos, para fazer dela a mãe de seu Filho. Maria é herdada da grandeza dos reis, filha ilustre da casa de Davi, glória suprema da tribo de Judá. Os patriarcas a desejaram, os profetas a anunciaram, os justos e os reis a interpelaram, o povo de Israel suspirou por ela, até ao dia em que ela apareceu enfim "para a salvação deste mundo em declínio". O nome de Maria é proclamado em todo o universo, pregado nas igrejas e nas capelas, nos claustros e nos campos, pelos pequenos e pelos grandes, pelos sacerdotes e pelos doutores — todos buscam louvá-la. A Homilia sobre a esplendor e a graça em Maria explora a ideia de que toda virtude tem um lado ativo e um lado passivo: produz obras que vemos e é produzida por causas que não vemos. O esplendor em Maria opera maravilhas que geram amor e admiração, arrastam os corações e elevam as almas. A Meditação sobre a beleza feminina defende que a beleza não é apenas um brilho, mas uma harmonia: a harmonia das proporções que constitui a perfeição.

Capítulo VIII — Das Belezas e da Ilustração de Maria

O oitavo capítulo é um cântico ao renome universal de Maria. O seu nome percorre o mundo inteiro, do nascente ao poente, entre judeus e gentios, gregos e latinos, romanos e citas: "partout il est annoncé avec l'Évangile". O coro dos justos une seus acordos para cantar os atrativos, a graça e a santidade de Maria, com um amor tão grande e uma prece tão doce que nunca se cansam de celebrá-la e meditar seus mistérios — à lembrança das palavras da Sabedoria: "Os que me comem ainda têm fome deste pão: os que me bebem ainda têm sede deste vinho." O texto ergue então uma grande prece de esperança: "Vinde, ó Maria, doce virgem que amo! Vinde, minha esperança e minha consolação! Vinde, pois junto a vós, quando ouço a vossa voz, parece-me já possuir todos os bens." A Homilia sobre a mediação de Maria no mundo sublinha seu papel como inspiradora de beleza, geradora de encanto e criadora de poesia na Igreja. Religiões onde o culto da Virgem não floresce são religiões frias e desprovidas de graça.

Capítulo IX — Das Figuras e dos Símbolos de Maria

O nono capítulo é um deslumbrante catálogo poético das perfeições de Maria, articulado em três movimentos. No primeiro, Kempis celebra a unicidade de Maria: "gloriosa e admirável Virgem Maria, mãe ao mesmo tempo e filha do vosso Deus", ela é a maior em sua humildade, a mais bela em sua virgindade, a mais ardente em sua caridade, a mais resignada em sua paciência, a mais doce em sua misericórdia, a mais inflamada em sua oração, a mais profunda em sua meditação, a mais elevada em sua contemplação. No segundo movimento, figuras bíblicas e cósmicas se acumulam: Maria é a morada de Deus e a porta do céu, o jardim das delícias, a fonte das graças, a glória dos anjos, a saúde dos enfermos, a mãe dos órfãos. Ela tem "o brilho da estrela, o encanto da rosa, a beleza da aurora, a doçura da lua, a profundidade da pérola, o esplendor do sol." No terceiro, imagens da natureza ampliam a contemplação: Maria é pura como a ovelha, simples como a pomba, prudente como uma nobre senhora, humilde como uma serva; é cedro altivo, videira carregada de cachos, figueira coberta de frutos, cipreste alto, palmeira cheia de glória. A Homilia sobre misericórdia e compaixão propõe que cada virtude tem um aspecto ativo visível e um aspecto passivo invisível. Em Maria, esplendor e ilustração operam maravilhas que envolcam os corações e elevam as almas.

Segunda Parte: Os Mistérios Dolorosos

Capítulo X — Da Anunciação e das Prerrogativas de Maria

O décimo capítulo meditando o mistério da Anunciação contempla como Maria recebeu e respondeu ao arcanjo Gabriel. Kempis a descreve como templo de Salomão entre os templos, o mais rico e o mais célebre: assim o templo simbólico de Maria supera em excelência os templos dos santos. A prece do capítulo dirige-se a Maria como "estrela que brilhas no céu, virgem, rainha dos céus, soberana do mundo": nenhuma mulher pode ser-lhe comparada, quaisquer que sejam as virtudes com que o céu a haja ornado. "Deus Pai vos viu, desde antes de todos os séculos, e vos criou na terra, nos tempos cumpridos, para fazer de vós a mãe de seu Filho." A Homilia ressalta que a dignidade de uma pessoa se mede pela sua função, e não há função mais sublime do que a maternidade divina de Maria.

Capítulo XI — Do Piedoso Patrocínio de Maria

O décimo primeiro capítulo abre a reflexão sobre a família espiritual a que pertence o fiel devoto de Maria. Kempis exorta aquele que quer abandonar o mundo: "que Jesus e Maria sejam vossos únicos amores; que Deus seja vosso pai e Jesus vosso irmão; que Maria seja doravante vossa única mãe." Os anjos serão amigos, os infelizes irmãos, os humildes e os pobres companheiros. Essa família santa tem por base a fé, por força a esperança, por ornamentos a paciência e a caridade. A grande imagem da proteção materna é central: "Se vós estais conosco para lutar, ó Maria, quem ousaria levantar-se contra nós? E se nos dais vossa proteção, quem jamais poderá repelir-nos?" A Homilia sobre a influência da mulher e da mãe no mundo afirma que o recordar da mãe, como sua visão, é o mais poderoso excitador da bondade no mundo. A civilização, a poesia, a arte, a moda — tudo na vida dos povos é organizado para agradar à mulher e é por ela inspirado. Maria, como influência supranatural, marca os mais belos monumentos da arquitetura e da pintura cristã.

Capítulo XII — Das Alegrias e Exultações de Maria

O décimo segundo capítulo inicia a Segunda Parte, consagrada aos Mistérios Dolorosos, mas começa, paradoxalmente, pelas alegrias. Nenhuma língua pode dizer as alegrias e as exultações da Virgem Maria; nenhuma razão jamais compreenderá a abundância de seus gozos de virgem nem a grandeza de suas consolações de mãe. Kempis estabelece uma proporção espiritual: quanto mais abundante é a infusão da graça, mais numeroso é o dom da alegria; quanto mais frequentes as visitas de Deus, mais ardentes o desejo e o amor. A imitação de Maria passa por participar dessas alegrias: lamentar as tiédezas passadas e os defeitos não domados, rezar para que todas as criaturas glorifiquem o Senhor, e agradecer pelos divinos benefícios recebidos pela via da Mãe de Deus. O amor a Maria como Mãe de Deus, Mãe da Igreja e nossa própria Mãe é apresentado como dever natural elevado à mais alta potência espiritual. A Homilia ensina que a alegria é um sentimento que dilata o coração e o faz bater com mais força. Maria, que teve na vida tantas causas de tristeza e de dores, é chamada pelas Escrituras "mãe da santa alegria" (Mater pulchra laetitiae). A alegria é a virtude que faz eclodir para fora, para alegrar os outros — ato de virtude que supõe esforço e dom de si mesmo.

Capítulo XIII — Das Exultações e dos Tressalhos de Maria

O décimo terceiro capítulo medita o Magnificat como expressão suprema da exultação de Maria: "Minha alma tressaltou diante de Deus, meu Salvador." Jesus é a fonte de todas as exultações de Maria, e o fiel é convidado a participar desses tressalhos pela meditação. Kempis propõe uma contemplação progressiva: louvar o Senhor, glorificá-lo grandemente, confiar-se à proteção de Maria, que pode obter de Jesus tudo o que queira pedir por nós. A Homilia sobre a consolação espiritual ensina que a alma que se ennoia é uma alma que não age; o antídoto do tédio é o trabalho. A Meditação sobre o bom caráter afirma que o caráter se forma como qualquer hábito virtuoso: é preciso que seja estável e não variável, e que seja bom, o que significa deleitável para os outros. Apenas as pessoas que respiram alegria têm bom caráter.

Capítulo XIV — Do Amor e da Dor de Maria

O décimo quarto capítulo, central na Segunda Parte, medita a dor de Maria ao perder Jesus no Templo de Jerusalém quando ele tinha doze anos. A narrativa evangélica serve de mote para uma reflexão sobre a dor espiritual de "perder Jesus" — o estado de aridez, de pecado ou de tiédeza em que a alma sente a ausência de Deus. A prece deste capítulo é das mais comoventes da obra: "Vós sabeis quanto é duro perder Jesus, e quanto também é doce reencontrá-lo. Se essa prova vos foi enviada a vós, ó Maria, a vós que eráveis sem pecado, que admiração se me é imposta a mim, que tantas vezes ofendi meu Deus?" A Homilia sobre o sofrimento e o amor comenta que "amar é sofrer", segundo o Eclesiastes. Mas para amar verdadeiramente, é preciso saber sofrer com nobreza — e Maria é nosso modelo nessa arte delicada que esculpe a alma como os golpes do martelo moldam a obra de arte no mármore. A compaixão — sofrimento-com — é o nome dado à participação de Maria nas sofrências de Jesus: se Jesus sofreu sua Paixão, Maria conheceu junto a ele a Compaixão.

Capítulo XV — Dos Exemplos e Conselhos de Maria para Buscar e Encontrar Jesus

O décimo quinto capítulo apresenta Maria como guia espiritual para quem perdeu Jesus — na linguagem mística, para a alma que caiu no pecado ou na tiédeza. "Escutai meus avisos, imitai meus exemplos, ó meu filho, e sereis então consolado." Os conselhos de Kempis são precisos: se vos acontecer por vezes perder também Jesus, não desespereis, não vos relaxeis, não vos entregueis às consolações da terra; ficai na retraite e chorai sobre vós mesmos — e o reencontrareis, no templo do coração. Jesus não se reencontra nas encruzilhadas das cidades, nem nas assembleias dos que se divertem; encontra-se no meio dos justos e na companhia dos santos. É nas lágrimas que se deve buscar aquele que se perdeu nos prazeres, é pela atenção que se deve reter aquele que se deixou ir por negligência, é pela humildade que se reconquista aquele afastado pelo orgulho, é pela oração que se atrai aquele que não ouve os corações frívolos. A Homilia sobre os aborrecimentos e as penas na vida cristã reconhece que a vida é um estranho conjunto de alegrias e tristezas, mas que as penas marcam no coração humano uma impressão mais rude do que as alegrias. Maria, com uma natureza mais apurada do que qualquer outra criatura, devia sentir com mais acuidade as dores físicas e os sofrimentos morais — angústia, terror, medo, inquietude, tédio, penas do coração —, e as suportou todas com firmeza, calma e serenidade.

Capítulo XVI — Das Dores e Sofrimentos de Maria

O décimo sexto capítulo mergulha na contemplação das sete dores de Maria. O princípio espiritual que abre o capítulo é luminoso: "Maria não viveu um único dia sem sofrer, e contudo no meio dos maiores sofrimentos jamais ficou sem consolações." Toda dor suportada por Jesus e com Jesus é transformada em alegria profunda. Kempis detalha as dores do coração de Maria: a profecia de Simeão sobre a espada que transpassaria sua alma, a fuga para o Egito, a perda de Jesus no Templo, o encontro no caminho do Calvário, a Crucificação, a descida da Cruz e a sepultura. A prece final é uma súplica ao Imaculado Coração de Maria para que interceda pelos vivos e pelos mortos, pelos pecadores e pelos justos. A Homilia sobre os sofrimentos e as lágrimas observa que o Evangelho, que fala frequentemente dos sofrimentos de Maria, nunca diz que ela chorou — mas diz isso de Jesus (lacrymatus est). Maria também deve ter chorado: "as lágrimas são uma transfusão do coração. Mas as lágrimas não devem abater." Sofrer é uma ciência. A Meditação sobre o tédio e o cansaço afirma que nada é mais triste na vida espiritual do que o tédio: ele destrói pouco a pouco a vida e a torna penosa para si mesmo e para os outros.

Capítulo XVII — Das Lições e Exemplos de Maria no Recolhimento Interior

O décimo sétimo capítulo é dedicado ao valor do recolhimento e da vida interior. Kempis usa a imagem dos perfumes: "os perfumes bem fechados em seus vasos embasamam mais e se conservam melhor; os que ficam a descoberto não tardam a perder seu gosto e seu aroma." Assim, a devoção conserva-se e cresce no recolhimento, enquanto se evapora e se perde no barulho. Três coisas são necessárias ao homem e agradam a Deus, a Maria e aos anjos: o trabalho das mãos, contra o peso do corpo; o amor do estudo, contra o tédio do coração; e o cuidado da oração, contra a arte do demônio. "Amai, pois, o recolhimento e trabalhai frequentemente se quereis ter em vós a paz do coração."

Capítulo XVIII — Como Se Deve Sofrer ao Exemplo de Maria

O décimo oitavo capítulo é o ponto culminante dos Mistérios Dolorosos, a meditação de Maria ao pé da Cruz: Stabat Mater. "Se amais verdadeiramente vossa mãe Maria e se verdadeiramente desejais seu patrocínio no meio de vossas próprias tribulações, permanecei com ela erguida junto à Cruz." Kempis propõe a participação afetiva nas dores de Jesus e de Maria como fonte de confiança plena na misericórdia de Deus. "Feliz aquela alma que, todos os dias de sua vida, amou verdadeiramente Jesus e Maria, e todos os dias fez sua estação junto à Cruz, em união com Jesus e com Maria!" A força ativa do sofrimento cristão se resume na exortação: "Se quereis, também, em vossas tribulações, encontrar alguma consolação, ide a Maria, virgem e mãe ao mesmo tempo." Toda sofrimento então desaparece, ou pelo menos parece mais leve e mais doce, comparado às dores da Virgem Maria. A Homilia sobre a resistência e a resignação distingue ação (força positiva) e resignação (força negativa): para suportar sem ceder, é preciso resignar-se. Mas a resignação não deve ser abatimento — é uma virtude, e o desânimo é um defeito. A Meditação sobre a força de caráter exorta a endurecer o corpo ao sofrimento e a afinar o espírito: Fortiter age.

Capítulo XIX — Como Se Deve Servir a Jesus ao Exemplo de Maria

O décimo nono capítulo abre com uma questão: quais são as mais elevadas no céu e as mais humildes na terra entre as criaturas dotadas de vida? São Jesus e Maria. "Jesus torna-se, por nós, o servo de todos, e Maria se chama a si mesma uma serva." E contudo a terra proclama a grandeza e o céu reunido canta a dignidade sublime de Jesus e de Maria. Kempis convida o fiel a unir sua voz a esses coros, e a colocar-se a serviço de quem primeiro se fez nosso servo. O serviço de Jesus e Maria é apresentado como dever e interesse do fiel: é preciso invocá-los em todo estado, expor-lhes as necessidades e as penas, confessar os pecados e chorar os esquecimentos, retomar a esperança e aguardar a graça. Se caíres, apressa-te a te levantar mais depressa ainda — "as orações sinceras são sempre escutadas e os gemidos verdadeiros sempre ouvidos." Maria obtém de Jesus o perdão dos pecados; os anjos se alegram ao ver a alma lavada das fealdades do pecado.

Terceira Parte: Os Mistérios Gloriosos

Capítulo XX — Do Início da Terceira Parte: A Vida Interior de Maria

Com o vigésimo capítulo inicia-se a Terceira Parte, consagrada aos Mistérios Gloriosos — os triunfos e as glórias de Maria em sua vida celeste. A vida interior de Maria é apresentada como o mais belo mistério: "É nas solidões da consciência que se passam os mais belos mistérios da vida, disse Lacordaire." Quem pudesse penetrar no interior de Maria contemplaria com deleite esplendores dignos do céu. É pela solidão e pelo silêncio que se elabora essa vida íntima que a mística chama de vida interior. Maria a viveu na companhia dos anjos e na intimidade de Jesus.

Capítulo XXI — Da Vida Interior de Maria

O vigésimo primeiro capítulo aprofunda a contemplação da vida interior de Maria. A imagem dos perfumes fechados nos vasos retorna: a devoção se conserva e cresce no recolhimento interior. O coração de Maria — cuja vida interior é descrita como santuário da dor e do amor (Amori et dolori sacrum) — conheceu as ternuras do amor e as angústias da dor mais do que qualquer coração humano. Coração de mãe e de mulher, coração de virgem e de mártir, moldado em carne imaculada e transformado pelo contato com o próprio coração de um Deus: "quando o coração de Jesus e o coração de Maria trocavam o mesmo sangue e viviam da mesma vida."

Capítulo XXII — Das Obras e dos Exemplos de Maria

O vigésimo segundo capítulo parte de palavras da Sabedoria: "Meu coração é mais doce do que o favo de mel e minha herança mais doce do que o seu mel." Kempis aplica essas palavras a Maria e a Jesus: "Jesus é doce para nós; Maria, toda doçura. Não há neles amargura nem tristeza, mas compaixão, doçura e caridade, e por fim misericórdia infatigável." A contemplação das obras de Jesus e de Maria é proposta como alimento da alma: "como o corpo precisa, para viver, de alimento, e para embasar-se, de perfumes, a alma precisa, para permanecer viva, de virtudes, e para ficar forte, de meditações." Quanto mais a alma se entrega às coisas elevadas e se confia a mestres excelentes, mais rapidamente adquire a ciência dos santos e chega às alegrias dos bem-aventurados. A Homilia sobre a ação e a devoção distingue que a verdadeira devoção é ativa, não passiva: "dedicar-se significa dar-se". A Meditação sobre o esforço pessoal propõe como ideal a atitude de Maria ao pé da Cruz: Stabat — a Virgem permanecia erguida, não dobrada; assim deve ser a atitude do imitador de Maria.

Capítulo XXIII — Como Se Deve Orar e Meditar ao Exemplo de Maria

O vigésimo terceiro capítulo é a arte da oração kempisiana aplicada à devoção mariana. Kempis ensina que a verdadeira oração deve ter intenção reta, elão de amor e perseverança. Maria é apresentada como mestra de oração: "antes mesmo de receber em seu seio o Filho Divino, Maria aspirava a comungar em pensamento com Deus. Pelo seu amor, ela atraiu Deus a si, diz São Bernardo." A Homilia sobre a comunhão espiritual explica que na comunhão é o comungante que é transformado no que recebe, e não o contrário. "Quando comungo, absorvo uma força que me transforma", disse Rodin. Para chegar a essa transformação, a alma precisa do recolhimento e da devoção — oblação total do ser a Deus — e é por Maria que essa oferta é mais agradável a Deus. A Meditação sobre a devoção a define como "a oferta feita a Deus do que há de melhor na criatura": ela não pode existir sem oblação total do coração e da vontade, e é apanágio da mulher e da virgem mais ainda do que do homem de ação.

Capítulo XXIV — Da Humildade de Maria

O vigésimo quarto capítulo propõe a humildade de Maria como modelo espiritual. O texto distingue entre ser humilhado por alguém — o que não é virtude — e praticar a humildade por si mesmo, que é o reconhecimento de sua própria inferioridade diante de Deus. "Maria se proclama uma humilde serva do Senhor, ao mesmo tempo em que é a mãe do Salvador, a rainha do céu e da terra." "O Senhor exalta os humildes", diz Maria no cântico do Magnificat. Sejamos humildes como ela, reconhecendo ao mesmo tempo a nossa dignidade de cristãos.

Capítulo XXV — Como Se Deve Ir a Jesus por Maria

O vigésimo quinto capítulo é o cume espiritual da Terceira Parte: o caminho para Jesus passa por Maria. "Feliz aquele que, cada dia, vem com cuidado oferecer a Jesus e a Maria suas homenagens, seus cânticos e seus louvores, seu coração e seu amor!" Kempis pinta o fiel como peregrino que, no tempo do exílio, recorda constantemente a pátria do alto, onde Jesus e Maria, rodeados de coros de anjos, o aguardam para gozar pela eternidade. A imagem eucarística é central: "todas as vezes que o fiel comungue, ou que o sacerdote ofereça o santo sacrifício, recebem em união com Jesus e com Maria o pão da alma." O comungante torna-se apóstolo de Jesus, page de Maria, companheiro dos santos, familiar de Deus, herdeiro do bem-aventurança do céu. A prece do capítulo pede ouvir a voz de Maria dizendo ao seu servo, como Jesus disse a João: "Meu filho, eis tua mãe."

Capítulo XXVI — Da Intercessão Materna de Maria

O vigésimo sexto capítulo apresenta a intercessão de Maria como prática "salutar entre todas". Invocá-la com frequência traz à alma assurance e conforto; e Maria, por sua vez, está sempre pronta a dizer a seu Filho a palavra de graça em favor de quem sofre. Kempis levanta uma questão retórica de grande força: "Se Maria não intercedesse no céu pelo mundo, como o próprio mundo poderia subsistir no meio dos pecados, na lama dos vícios onde quer permanecer?" Para os religiosos e as almas piedosas, invocar Maria é obrigação especial, pois fazem profissão de virtude e aspiram à perfeição do céu. O que pedir a Maria? Em primeiro lugar, o perdão dos pecados cometidos; depois, o dom da continência; em seguida, a graça de praticar a humildade, que é a única que agrada a Deus. Todas essas qualidades — humildade sincera, pobreza completa, obediência inteira, caridade perfeita — se encontram reunidas em Maria em sua perfeição. A Homilia sobre a miséricórdia de Maria explica que a miséricórdia pertence propriamente apenas a Deus, mas que Ele ama exercê-la por sua mãe. "O dom reveste assim mais doçura e encanto." Maria recebeu todas as miséricórdias de Deus — graças do corpo, graças do coração, graças do espírito.

Capítulo XXVII — De Como Maria Salva e Consola

O vigésimo sétimo capítulo toma a forma de um diálogo entre Maria e o discípulo. Maria fala em primeira pessoa, num cântico de misericórdia: "Eu sou a mãe da misericórdia, de coração sempre cheio de compaixão; sou a escada misteriosa dos pecadores, sou a esperança e o perdão dos culpados, sou a consolação das almas aflitas, sou a alegria e a fruição dos bem-aventurados." Ela convida todos — justos e pecadores — a virem até ela, prometendo rezar por eles ao Pai e ao Filho. "Assim frutifica o sangue de meu doce filho, oferecido a Deus pela salvação do mundo inteiro." O discípulo responde com admiração: "Ó palavra repleta de graça e de doçura! Ó palavra suave ouvida do próprio céu, palavra que conforta, palavra que consola, palavra que alegra o pecador e o justo, voz de uma mãe que ressoa no coração como uma doce harmonia do céu!" A alma transformada por esta voz sente em si uma força nova, uma nova alegria que a levanta e a coloca de pé. A Meditação sobre o papel de Maria na Igreja sublinha que as religiões em que o culto da Virgem não floresce são religiões frias e desprovidas de graça — Causa nostrae laetitiae: a causa de nossa alegria.

Capítulo XXVIII — Da Mediação de Maria

O vigésimo oitavo capítulo esclarece a natureza da mediação de Maria. A mediação de Maria é uma intercessão, enquanto a de Jesus é uma imolação. "Maria é uma advogada que intercede; Jesus é um mediador que paga." Mas a intervenção de Maria, mesmo como advogada, é uma força: força para nós, porque excelhe a nos elevar. O papel de Maria na Igreja é também o de inspiradora de beleza, geradora de encanto e criadora de poesia. Maria, por Deus estabelecida como mediadora entre o céu e a terra, convida todos: "Mudai de caminho e convertei-vos a Deus! Pedis perdão e eu vos obterei a indulgência e a paz." A Meditação sobre a misericórdia de Maria a contempla como Misericordiarum Mater: a mãe das misericórdias.

Capítulo XXIX — Da Divina Intervenção de Maria

O vigésimo nono capítulo retoma o diálogo entre o discípulo e Maria, desta vez como modelo de encontro espiritual. O discípulo implora: "Feliz momento quando vos dignais, ó Maria, visitar minha pobre alma entristecida!" Maria responde como mãe do belo amor, das doces crenças e das ternuras: "Exulta em teu coração ao ouvir meu nome, inclina-me a cabeça e enviai-me uma saudação: honras o filho honrando a mãe." Jesus é apresentado na resposta de Maria como esperança dos justos, paz dos mansos, força dos fracos, via dos errantes, apoio dos que o infortúnio oprime, refúgio de todos os que têm o coração bom.

Capítulo XXX — Da Eterna Realeza de Maria

O trigésimo e último capítulo coroa a obra com a contemplação da realeza eterna de Maria. O coração de Jesus, unido à divindade na pessoa de Cristo, transmitiu pelo seu contato com o coração de sua mãe algo de sua grandeza e de sua beleza ao de Maria. "Maria é, pois, rainha pelo coração, como é rainha por seu destino humano." Seu coração vibra com mais força do que o coração de uma criatura — é menos sublime do que o coração de Deus, mas é único entre o céu e a terra. A meditação final celebra a perenidade do amor: "O amor não é um simples sentimento: é uma força gigantesca. As mulheres detêm um poder que não conhecem. Somente Maria soube o que o amor de uma mãe tem de potência." Saber amar, e amar sempre, é a vida ardente, a vida ativa, a vida em sua plenitude. A obra conclui com uma invocação a Maria ao modo de Dante — o "divino poeta" que a contemplou no Paraíso: "Ó mãe, ó rainha, ó Maria, ajudai-nos a vos amar, ajudai-nos a vos louvar! Vós sois a beleza, a beltà, e não podemos suficientemente admirar-vos. Vós sois a bondade, a bontà, e não podemos suficientemente louvar-vos." E a palavra digna de Maria, a que veio do céu, a palavra do arcanjo, é a única que a encerra: Ave Maria! Aqui termina o piedoso Livro da Imitação da Virgem Maria, devotamente traduzido e transcrito pelo Mélode Albinus.


Obras Relacionadas na Biblioteca

A espiritualidade contemplativa desta obra ressoa com a tradição mística carmélita de São João da Cruz e A Subida do Monte Carmelo, bem como com a simplicidade de A Prática da Presença de Deus de Frei Lourenço. A devoção mariana aprofunda-se em diálogo com Nossa Senhora de Fátima. A espiritualidade da oração como caminho de santidade está desenvolvida em O Grande Meio da Oração de Santo Afonso de Liguori, e o tema do amor divino percorre também Dilexi Te.