R. P. Réginald Garrigou-Lagrange, O.P. — c. 1933
Resumo em português a partir do original francês Les Trois Conversions et les Trois Voies
Esta obra foi escrita com o objetivo de ser acessível a todas as almas interiores, servindo como um resumo e uma introdução a duas obras mais extensas e profundas do autor: "Perfeição Cristã e Contemplação" e "O Amor de Deus e a Cruz de Jesus". Nesses livros anteriores, seguindo os princípios teológicos formulados por Santo Tomás de Aquino e a doutrina mística de São João da Cruz, demonstrou-se que a perfeição cristã consiste, de maneira muito especial e essencial, na caridade. Esta caridade deve ser vivida segundo a plenitude dos dois grandes preceitos fundamentais da lei divina: o amor a Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com todo o entendimento, e o amor ao próximo como a si mesmo (Lucas 10, 27). Foi demonstrado também que a contemplação infusa dos mistérios da fé — como os mistérios da Santíssima Trindade habitando e presente em nós, da Encarnação redentora do Verbo, da Cruz salvífica e da Sagrada Eucaristia — encontra-se e faz parte da via normal e ordinária do desenvolvimento da santidade cristã.
O autor explica que, tratando das purificações que são estritamente necessárias para que a alma possa alcançar o amor perfeito a Deus e ao próximo, procurou mostrar de forma particular que a purificação passiva dos sentidos marca, na jornada da alma, a sua entrada na via iluminativa. Por outro lado, a purificação passiva do espírito assinala a entrada da alma na via unitiva, que é a via própria dos perfeitos. Atendendo a diversos e reiterados pedidos, o autor decidiu resumir essas duas obras fundamentais, com o intuito de colocar em maior relevo quais são, sob este prisma específico, as grandes linhas e os contornos essenciais da teologia ascética e mística.
Para evitar a pura e simples repetição do que já fora ensinado, e visando considerar e expor essas realidades de uma maneira que fosse simultaneamente mais simples e mais elevada, o autor aborda aqui os três diferentes "idades" ou fases da vida do espírito. Para cada uma dessas fases, ele descreve as três conversões correspondentes que constituem, precisamente, o começo ou o limiar de cada uma delas. A divisão do progresso espiritual segundo as três vias — purgativa, iluminativa e unitiva — é uma divisão pacificamente e comumente recebida na Igreja desde os tempos de Santo Agostinho e de Pseudo-Dionisio Areopagita. Tornou-se até mesmo uma noção banal e corriqueira, na medida em que é invariavelmente reproduzida por praticamente todos os manuais e tratados de espiritualidade.
No entanto, o autor ressalta que se descobre a verdade profunda dessa divisão, o seu sentido teológico autêntico, a sua imensa abrangência e o seu inegável interesse vital para as almas, quando ela é explicada de uma maneira analógica. Como o próprio Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, indicou de forma magistral, essa divisão deve ser compreendida por analogia com as diversas idades e etapas do desenvolvimento da vida corporal humana: a infância, a juventude e a idade adulta. Além disso — um aspecto que é esquecido e negligenciado com excessiva frequência —, essa divisão também deve ser explicada através da comparação cuidadosa com os diversos momentos e fases cruciais do desenvolvimento da vida interior dos próprios Apóstolos.
Os Apóstolos tiveram o privilégio inestimável de serem formados imediata e diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo durante os anos do Seu ministério público. A vida interior deles deve, guardadas as devidas proporções como ensinam os santos, reproduzir-se em cada um de nós. Eles são os nossos modelos preclaros, sobretudo e de forma eminentíssima para o sacerdote; todavia, todo e qualquer cristão deve, em um certo sentido verdadeiro, ser também um apóstolo e deve viver do Cristo em medida suficiente para poder comunicá-Lo e doá-Lo aos outros através do seu exemplo e da sua palavra.
Nesta obra, a insistência recairá sobre verdades que podem parecer elementares e primárias. Contudo, o autor faz um alerta severo: muitas vezes esquecemos, em nossa superficialidade, que as verdades mais altas, mais sublimes e mais vitais para a nossa salvação são precisamente essas verdades elementares quando são devidamente aprofundadas, quando são longamente meditadas e quando, por fim, se transformam no objeto contínuo e pacífico da contemplação sobrenatural da alma.
Como exemplo palpável, o autor questiona se as pessoas, mesmo aquelas mais familiarizadas com a leitura habitual do Santo Evangelho, saberiam dizer se há, em alguma passagem bíblica, menção clara e explícita a uma "segunda conversão". Muitos, indubitavelmente, dariam uma resposta negativa. Todavia, existe uma palavra de Nosso Senhor que é assaz clara e irrefutável a este respeito. São Marcos (9, 32) relata que, durante a última passagem de Jesus pela região da Galileia, quando Ele chegou com os doze Apóstolos à cidade de Cafarnaum, dirigiu-lhes a seguinte pergunta: "De que faláveis vós no caminho?". O evangelista prossegue, anotando a reação envergonhada deles: "Mas eles guardaram profundo silêncio; pois no caminho tinham discutido uns com os outros sobre qual deles seria o maior".
O Evangelho de São Mateus (18, 3), ao narrar precisamente o mesmo episódio revelador, acrescenta detalhes vitais: "Jesus, chamando a si um menino pequeno, colocou-o no meio deles e proferiu estas palavras de imensa gravidade: 'Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como os meninos pequenos, de modo algum entrareis no reino dos céus'". O autor argumenta com força que se trata aqui, de maneira muito clara e insofismável, da realidade espiritual de uma segunda conversão. Jesus dirige estas admoestações aos Seus Apóstolos, homens que já O haviam seguido, que já haviam deixado tudo para trás, que já tinham tomado parte ativa no Seu ministério pregando às multidões, homens que em breve iriam comungar na Última Ceia e dos quais três (Pedro, Tiago e João) já O tinham inclusive acompanhado até o alto do monte Tabor na Sua sublime Transfiguração.
Eles já se encontravam no estado da graça santificante, mas, apesar de tudo isso, Jesus fala-lhes severamente da estrita necessidade de se converterem mais uma vez, a fim de poderem entrar de forma mais profunda, radical e autêntica no reino de Deus e na intimidade divina. De forma ainda mais particularizada e incisiva, o Evangelho narra (Lucas 22, 32) o que foi dito ao apóstolo São Pedro, o primeiro Papa: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou com insistência para vos joeirar e peneirar como se faz com o trigo; mas Eu roguei e rezei por ti, para que a tua fé não desfaleça de maneira alguma; e tu, quando te converterdes, confirma e fortalece os teus irmãos". Trata-se, inquestionavelmente, de uma profecia e de um chamamento para a segunda conversão de Pedro, evento decisivo que teria lugar no desfecho da Paixão do Senhor, imediatamente após o seu trágico e doloroso tríplice renegamento. É sobretudo e essencialmente dessa segunda conversão, desse momento de aprofundamento radical da graça na alma, que o autor pretende tratar e desenvolver ao longo deste pequeno mas denso livro.
A vida interior da alma constitui, para cada um de nós sem exceção, a única coisa verdadeiramente necessária ("unum necessarium"). Ela deveria se desenvolver continuamente e de forma ininterrupta em nossa alma, e isso com muito mais vigor e importância do que aquilo que o mundo costuma chamar e glorificar como a vida puramente intelectual, o progresso científico, a expressão artística ou a cultura literária. A vida interior é, na sua essência, a vida profunda e verdadeira da alma e do homem considerado na sua totalidade integral, e não apenas o exercício isolado de uma ou outra de suas faculdades humanas. A própria intelectualidade, longe de perder, ganharia imensamente se, em vez de pretender loucamente suplantar e asfixiar a espiritualidade e a religião, reconhecesse humilde e realisticamente a sua estrita necessidade, a sua insuperável grandeza, e passasse a beneficiar-se de sua influência purificadora e elevadora — que é, nada mais, nada menos, que a influência direta das virtudes teologais infusas (fé, esperança e caridade) e dos sete dons preciosos do Espírito Santo.
O autor ressalta a necessidade urgente e imperiosa de que o homem retorne ao cultivo diligente dessa vida interior. Essa premente necessidade de voltar a mente e o coração para a consideração da "única coisa necessária" faz-se sentir de forma ainda mais dolorosa e aguda em nossos tempos, caracterizados por um profundo mal-estar e por um desarranjo geral em todos os âmbitos da sociedade. Vemos, com imensa tristeza, que tantos homens e tantas nações inteiras, perdendo totalmente de vista a nossa verdadeira e última finalidade existencial, passam a colocar freneticamente o seu fim último e a sua felicidade nas riquezas e nos bens puramente terrenos e materiais. Ao fazerem isso, esquecem-se tragicamente de quão profundamente esses bens efêmeros diferem e se opõem aos bens espirituais e eternos.
Como Santo Agostinho de Hipona ensinou com insuperável sabedoria e clareza, os bens de ordem estritamente material e corporal têm uma natureza limitante: eles não podem pertencer simultaneamente e na sua totalidade a várias pessoas. A mesma casa, a mesma propriedade de terra não podem pertencer ao mesmo tempo e inteiramente a diversos proprietários, assim como o mesmo território não pode ser possuído de forma integral por diferentes nações. Desse fato inerente à matéria surge o terrível, violento e perpétuo conflito de interesses que assola a humanidade, conflito esse que se torna inevitável e sanguinário quando os homens colocam de forma febril e apaixonada a sua meta última e a razão do seu existir nesses bens mesquinhos e limitados.
Em absoluto contraste com essa realidade desoladora, Santo Agostinho comprazia-se em reiterar que os bens de natureza espiritual podem, de fato, pertencer simultaneamente, inteiramente e sem qualquer diminuição a todos e a cada um dos homens, sem que a posse de um indivíduo acarrete o mínimo prejuízo à paz, à alegria ou à porção do seu próximo. É possível que todos os homens possuam de forma plena e conjunta a mesma verdade resplandecente, que pratiquem a mesma virtude heroica e que amem ao mesmo e único Deus verdadeiro. Os bens espirituais são, pela sua própria natureza imaterial, suficientemente infinitos, ricos e universais para pertencerem a todos ao mesmo tempo e para saciarem e preencherem por completo a voracidade do coração de cada um de nós.
Mais ainda, é uma lei do espírito que nós só possuímos uma verdade de maneira cabal e perfeita quando a ensinamos generosamente aos outros, quando partilhamos com eles o fruto maduro da nossa contemplação amorosa. Da mesma forma, não amamos verdadeiramente e de coração uma virtude a não ser que desejemos ardentemente vê-la amada e praticada por outrem; e não amamos sinceramente a Deus se não tivermos o desejo devorador e a vontade firme de fazê-Lo amado, conhecido e adorado por todas as Suas criaturas racionais. Esta lei profunda postula que, enquanto se perde irremediavelmente o dinheiro que se dá ou que se gasta em transações comerciais mundanas, o cristão não perde a Deus quando O dá aos outros através da pregação e da caridade. Pelo contrário, Ele passa a ser possuído de maneira ainda mais excelente, firme e deleitável. Perderíamos a Deus e a Sua graça, sem dúvida alguma, se por sentimentos baixos de ressentimento, inveja ou ódio, desejássemos que uma única alma ficasse privada Dele, mesmo que fosse a alma daquele que nos persegue ferozmente e nos calunia com injustiça.
O autor conclui este formidável pensamento agostiniano resumindo-o numa máxima de luz: se os bens materiais e terrenos têm a propriedade nefasta de dividir os homens tanto mais quanto são buscados avida e egoisticamente por si mesmos, os bens espirituais e divinos, pelo contrário, possuem a virtude inefável de unir os homens com laços tanto mais profundos, firmes e indissolúveis quanto mais intensa e devotamente são amados. Este princípio luminoso não é apenas uma diretriz da vida ascética, mas contém também, virtualmente e em germe, a solução definitiva e única para a angustiante questão social e para a gravíssima crise econômica mundial que devasta a civilização atual. É o cumprimento literal e exato da advertência evangélica perene: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas materiais e terrenas vos serão dadas por acréscimo" (Mateus 6, 33). O mundo contemporâneo agoniza e morre por sufocamento espiritual precisamente devido ao trágico esquecimento desta verdade que, sendo tão simples e elementar para o catecismo de qualquer cristão humilde, é o alicerce insubstituível da ordem e da paz na sociedade.
Ao discorrer sobre qual seria o verdadeiro princípio ou a fonte inesgotável da vida interior, o autor se vê na obrigação de recordar e enfatizar fortemente a natureza verdadeira dessa vida. Isso se faz necessário, argumenta ele, porque ao longo dos séculos inúmeras e graves heresias, bem como erros doutrinários sutis, alteraram e corromperam a ideia puríssima que nos é dada pelos Santos Evangelhos, pelas admiráveis Epístolas de São Paulo e pela unânime e ininterrupta Tradição Apostólica da Igreja Católica.
De modo muito particular e crítico, o autor aponta que essa ideia autêntica da vida interior sofreu uma alteração estrutural e profunda com o advento da teoria luterana da justificação ou conversão do pecador. De acordo com a doutrina errônea do protestantismo incipiente elaborado por Martinho Lutero, os pecados mortais e graves presentes na alma do infeliz que se converte a Deus não são de modo algum apagados de forma real, positiva e intrínseca mediante a efusão purificadora e a infusão ontológica da vida nova, que consiste na graça santificante e na virtude teologal da caridade. Ao revés, para a teologia luterana, os pecados mortais permanecem intocados na alma do convertido; eles são, segundo essa concepção, meramente "cobertos" ou "velados" perante o olhar da justiça divina através da fé fiducial e da confiança cega do crente nos méritos infinitos do Cristo Redentor. Deus, segundo essa visão, simplesmente decidiria não imputar mais aqueles pecados àquele que os cometeu, declarando o homem justo apenas por uma imputação que é extrínseca e forense da justiça do próprio Jesus Cristo, mas deixando o interior da alma sem qualquer justificação intrínseca, sem qualquer renovação ou regeneração genuína de sua natureza decaída.
Para a compreensão luterana e protestante, não seria, portanto, estritamente necessário que o homem possuísse a caridade infusa ou o amor ardente e sobrenatural a Deus e às almas em Deus para que pudesse ser considerado plenamente justo e agradável aos olhos severos do Senhor. Em resumo, o pretenso "justo" assim concebido teoricamente pela Reforma, a despeito de sua proclamada fé em Cristo como Salvador, permaneceria miseravelmente afundado em seu próprio pecado não perdoado nem extirpado, jazendo na sua corrupção original e na mais abjeta morte espiritual. Essa gravíssima concepção teológica, que ofuscava e desconhecia completamente a excelsa e insubstituível grandeza da nossa vida sobrenatural e infusa — e que reduzia a sua essência a uma mera "fé-confiança" subjetiva e vazia, destituída por completo tanto da graça santificante vital quanto da vivificante caridade, bem como do valor meritório das boas obras realizadas na graça —, estava fadada, de forma lógica e inexorável, a conduzir paulatinamente o pensamento religioso e a civilização ocidental aos abismos do naturalismo moderno.
Para esse naturalismo rasteiro que se seguiu historicamente, o homem considerado "justo" ou "bom" passa a ser única e simplesmente aquele indivíduo que, abstraindo de todo e qualquer Credo doutrinário, dogma revelado ou filiação eclesial, estima platonicamente e conserva externamente a honestidade moral puramente natural. Essa mesma honestidade natural era já ensinada e louvada pelos melhores e mais excelsos filósofos pagãos da antiguidade greco-romana antes mesmo do advento esplendoroso do Cristianismo no mundo.
Contra essa degradação do mistério da redenção, o autor reafirma vigorosamente, com apoio na totalidade das Escrituras Sagradas, que a justificação genuína e a autêntica conversão do ímpio pecador não consistem absolutamente num mero artifício jurídico de "cobrir" e ocultar os seus múltiplos pecados como se esconde a sujeira debaixo de um véu de aparência, mas sim num ato de infinito poder divino que os apaga radical, total e definitivamente. Esse aniquilamento maravilhoso do pecado só se realiza mediante a infusão vivificante de uma nova e esplêndida vida sobrenatural que inunda a alma. Ele cita de maneira abundante e irrefutável os lamentos penitenciais do Salmista (Salmo 50), que suplica a Deus que o lave, que o purifique, que o crie de novo com um coração puro, limpo de toda mácula e recriado em santidade, não apenas coberto.
Invoca as impressionantes e divinas promessas registradas pelos santos Profetas, como a de Isaías, que proclama que é o próprio Deus altíssimo quem, por um ato soberano e misericordioso de amor, apaga ativamente as nossas muitas prevaricações, extirpando-as da existência. Apela ainda, de maneira solene, para a proclamação formidável de São João Batista, que apontou para Jesus nas margens do Jordão e O designou categoricamente como o verdadeiro Cordeiro imaculado de Deus, aquele Cordeiro cujo sacrifício tem o poder infinito de "tirar" e extirpar eficazmente o pecado do mundo inteiro, e não apenas de encobri-lo covardemente. Recorre às altíssimas e luminosas teologias de São João Evangelista e do glorioso Apóstolo São Paulo para demonstrar com clareza ofuscante que a graça santificante não é outra coisa senão uma participação ontológica, real, viva, formal e divina na própria natureza íntima de Deus (como aliás afirma literalmente e de maneira explícita o Apóstolo São Pedro na sua Segunda Epístola universal).
A graça santificante eleva de forma indescritível o ser humano miserável, fazendo dele um verdadeiro e autêntico filho adotivo de Deus Todo-Poderoso, dotando a sua alma regenerada nas águas do Batismo e fortificada no sacramento da Penitência com o formidável e divino poder e capacidade de realizar e produzir operações vitais que são de ordem puramente sobrenatural, operações estas que jamais poderiam brotar ou originar-se das meras e limitadíssimas forças humanas e carnais. Mais do que isso, a vida da graça, derramada generosa e abundantemente sobre as nossas almas sequiosas, especialmente e eminentemente por meio dos Santos Sacramentos do Batismo regenerador e da Eucaristia que a nutre e a faz crescer, é descrita pelos lábios do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo e definida unanimemente por toda a sã tradição mística e teológica católica, encabeçada pelo insuperável Santo Tomás de Aquino, como sendo, verdadeira e substancialmente, nada menos do que a "vida eterna começada" já aqui e agora, na obscuridade peregrina desta terra de exílio.
A graça santificante presente em nós constitui, em sua essência divina inesgotável, a semente gloriosa e vivaz da eterna glória ("semen gloriae"). Ela não é outra realidade ontológica senão a mesmíssima vida que, um dia, após a vitória final sobre a morte e o pecado e no momento do seu desabrochar perfeito, pleno e insuperável nos esplendores do Céu imperecível, nos concederá o poder e o deleite indizível de ver a Deus imutável e beatíssimo de maneira clara, límpida, face a face, de conhecê-Lo profunda e beatificamente exatamente da mesma maneira adorável como Ele mesmo se conhece e se contempla em Si mesmo desde toda a eternidade, e de amá-Lo na bem-aventurança do Paraíso com aquele mesmo amor infinito e perfeito com que Ele infinitamente e perfeitamente se ama a Si mesmo e rejubila em Sua infinita glória para todo o sempre.
Com base nesta revelação inaudita da dignidade à qual fomos chamados pela infinita e inexplicável misericórdia de Deus para conosco, o autor conclui este primeiro e fundamental capítulo meditando reverentemente sobre o imensurável, absoluto e assombroso valor que possui uma verdadeira, profunda e sincera conversão espiritual humana. A conversão espiritual é o movimento estupendo pelo qual a alma, morta e putrefata no seu trágico afastamento rebelde e soberbo do Criador por causa da mancha hedionda do pecado mortal, abandona o seu tenebroso cativeiro e a sua vergonhosa escravidão às vis paixões desenfreadas da carne, aos engodos perversos e ilusórios do mundo mentiroso e à tirania cruel do espírito infernal do mal, para abraçar, dócil e amorosamente, o jugo suave do Reinado santificador de Deus. É o momento indescritível e solene em que a alma passa a gravitar em torno de Deus como o seu centro último e único, amando-O e preferindo-O muito mais do que a si própria, e subordinando todas as coisas com perfeita ordem à obediência de Sua adorável e divina vontade salvífica.
A grandiosidade superlativa, o brilho sem igual e o espanto deste evento transformador invisível são tão profundos que, citando as sentenças teológicas rigorosas e precisas do Doutor Angélico e do genial filósofo e pensador católico Blaise Pascal, o autor atesta com firmeza granítica: o bem ontológico do menor grau de graça santificante que possa existir na alma invisível de um pequenino e indefeso recém-nascido logo após o banho regenerador do sacramento do Santo Batismo, esse pequenino gérmen sobrenatural da vida divina, possui, aos olhos da suma sabedoria do Criador, um valor incalculavelmente maior, infinito e infinitamente mais precioso do que todo e qualquer bem meramente natural, ainda que somássemos juntos todo o bem natural de todos os vastíssimos universos físicos criados e de todas as imensas, luminosas e poderosíssimas naturezas angélicas que jamais existiram ou puderem existir.
A graça, pela sua excelência intrinsecamente divina, não pertence à ordem rasteira da natureza ou da criação material ou mesmo angélica; ela não é um produto aprimorado das forças do cosmos. Pelo contrário, ela é uma participação incriada na ordem da divindade, pertencendo estrita e ontologicamente à ordem infinita, incomensurável, excelsa, inacessível e adorável do amor sobrenatural. Por conseguinte, a justificação miraculosa e a salvação amorosa e gratuita de um único pecador constituem, na economia imutável e sapientíssima da redenção providenciada e decretada pelo Altíssimo na cruz ensanguentada do Calvário, uma obra divina muito maior, muito mais sublime, esplendorosa, arrebatadora e inenarrável do que a própria criação "ex nihilo" dos firmamentos estrelados dos céus, das maravilhas da Terra e de todas as hostes brilhantes dos seres angelicais juntos. É um mistério prodigioso de amor que arranca o homem das trevas da morte eterna e o faz sentar-se junto aos esplendores da Trindade Beatíssima.
No estado decaído em que se encontra a natureza humana devido ao pecado original, o homem é incapaz, pelas suas próprias forças limitadas, de amar efetivamente a Deus acima de todas as coisas. Se já não consegue cumprir toda a lei moral natural sem o auxílio divino, muito menos pode alcançar o amor sobrenatural, que pertence a uma ordem infinitamente superior. Daí advém a absoluta necessidade da graça batismal, que nos infunde um verdadeiro e robusto organismo espiritual.
A graça santificante, inserida na essência da nossa alma, é o princípio radical e imperecível deste formidável organismo. Dela derivam, como ramos do seu tronco, as virtudes infusas. As mais importantes são as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Enquanto a fé e a esperança darão lugar à visão e à posse de Deus na vida eterna, a caridade permanecerá para sempre, sendo a maior de todas as virtudes. A este edifício somam-se as virtudes morais infusas, que regulam e ordenam os meios para alcançar o fim último (tais como a prudência cristã, a justiça, a fortaleza, a temperança e a humildade).
Para remediar as imperfeições humanas que ainda se mesclam no exercício destas virtudes, o Espírito Santo concede à alma os Seus sete dons. Esses dons sagrados atuam como velas num barco, dispondo a alma a receber com total docilidade e prontidão o sopro das inspirações divinas, permitindo-nos agir de um modo já não apenas humano e laborioso, mas plenamente divino e movido pelo próprio Espírito. Todo este maravilhoso organismo espiritual deve crescer e desenvolver-se simultaneamente, assim como os órgãos de um corpo crescem em harmonia.
Essa vida da graça constitui um gérmen da vida eterna. Se não tivéssemos sido elevados à ordem sobrenatural, nossa bem-aventurança consistiria apenas num conhecimento abstrato do Criador através das Suas criaturas, onde O serviríamos sem a familiaridade afetuosa própria de um filho. Pela Revelação e pela infusão da graça divina, fomos chamados a algo prodigiosamente superior: ver a Deus face a face, tal como Ele é, sem qualquer ideia intermediária. O chamamento é para contemplar a majestosa simplicidade divina, a inefável fecundidade da Santíssima Trindade e a suprema harmonia das Suas divinas perfeições. Sendo a graça o verdadeiro começo dessa vida celestial gloriosa, a espiritualidade do cristão na terra deve ser caracterizada por uma profunda humildade, uma mortificação constante de tudo o que ainda resta de egoísmo e uma vida cada vez mais absorta na fé e na caridade contemplativa.
A tradição da Igreja costuma comparar o desenvolvimento da vida interior aos três grandes estágios do desenvolvimento orgânico corporal: a infância, a adolescência e a idade adulta. Na vida corpórea, a transição da infância para a adolescência (a puberdade) é acompanhada por uma profunda crise física e psicológica. Analogamente, existe a transição difícil da juventude para as imensas responsabilidades e liberdades do adulto. Se essas crises vitais não forem bem superadas, a pessoa sofre um atraso no seu desenvolvimento, tornando-se imatura ou deformada em seu caráter.
De maneira semelhante, os mestres espirituais – como São João da Cruz, o dominicano João Tauler e o padre jesuíta Lallemant – descrevem crises ou transformações radicais idênticas na vida espiritual da alma. O fiel sincero precisa passar por uma "segunda conversão" (a noite passiva dos sentidos) para transitar da via purgativa dos incipientes para a via iluminativa dos proficientes. Mais tarde, uma "terceira conversão" (a terrível mas sublime noite passiva do espírito) deverá purificá-lo inteiramente de todo resquício de amor-próprio, a fim de introduzi-lo na altíssima via unitiva, que é o estado próprio dos perfeitos e o mais alto grau de união com Deus nesta terra.
Essa necessidade inelutável de uma segunda conversão evangélica não é um preceito imposto arbitrariamente aos santos, mas revela-se com insuperável clareza na própria trajetória espiritual dos doze Apóstolos de Nosso Senhor. Santa Catarina de Sena, de modo especial nas suas sublimes revelações do seu célebre "Diálogo", descreve com maestria realista a história das conversões apostólicas.
A "primeira conversão" de São Pedro e dos outros apóstolos aconteceu no momento em que, com fé sincera, ouviram o chamamento inaugural de Jesus, deixaram suas barcas e Suas famílias e O seguiram durante os anos do ministério público. Testemunharam estupendos milagres, escutaram Suas pregações inigualáveis e, comungando na Última Ceia, estavam firmemente convictos de que O amavam muito.
Contudo, este amor, embora tivesse a sua sinceridade profunda, era ainda eivado de consideráveis imperfeições humanas. Quando sobreveio a hora assustadora da Paixão – hora das trevas –, eles todos vacilaram e fugiram acovardados. Pedro chegou ao cúmulo de renegar o Divino Mestre por três vezes consecutivas, por puro medo de ser preso. Cristo, entretanto, havia profetizado a queda de Pedro e rezado incansavelmente pela sua fé, ordenando-lhe que, "uma vez convertido" de maneira autêntica e mais forte, passasse a confirmar e alentar os seus irmãos.
A formidável "segunda conversão" do Apóstolo Pedro teve o seu doloroso e bendito início imediatamente após esse tríplice renegamento, quando, ferido de amor e contrição pelo olhar misericordioso e silencioso do Mestre traído, retirou-se para chorar amargamente. Contudo, essa intensa contrição, ensina Santa Catarina, ainda não era perfeita em todos os sentidos. O Senhor precisou confirmar essa conversão decisiva às margens do Mar da Galileia, após a Ressurreição triunfante, exigindo de Pedro uma tríplice profissão de amor filial em reparação pelas suas três quedas medrosas. O Apóstolo só veio a ser purificado definitiva e perfeitamente após a descida transformadora do Espírito Santo no dia de Pentecostes.
Ora, adverte vigorosamente Santa Catarina, se os próprios grandes Apóstolos, que foram esculpidos e formados de forma imediata pelo olhar divinal de Nosso Senhor, necessitaram inquestionavelmente de uma dor pungente e de uma segunda conversão interior, muito mais urgentes e necessárias elas o são para cada um de nós.
Mas quais são exatamente os defeitos enraizados e sorrateiros que exigem de forma impreterível uma nova intervenção purificadora da graça em nossas almas? É, acima de tudo, a permanência perniciosa do amor-próprio e do apego desordenado a nós mesmos. Esse egoísmo secreto e pegajoso persiste com teimosia nas almas dos principiantes, originando uma miríade de pecados veniais consentidos, julgamentos mesquinhos, omissões deliberadas, faltas voluntárias e atitudes mundanas e comodistas disfarçadas.
Santa Catarina ensina, com a autoridade que lhe foi conferida, que a maioria imensa das almas imperfeitas e incipientes serve a Deus com o que ela denuncia como um "amor estritamente mercenário". Elas amam a Deus buscando ainda a si próprias. Buscam, por exemplo, o conforto espiritual, as delícias afetivas da consolação na oração, a admiração da comunidade e os benefícios celestes. Quando Deus, para purificá-las como o ouro é provado no crisol, resolve retirar-lhes essas sensações consoladoras e envia-lhes contrariedades, securas árduas e tribulações amargas, essas almas vacilam e muitas vezes esmorecem lamentavelmente. Este é o exato momento, explica Santa Catarina e, posteriormente, ensinará São João da Cruz, em que ocorre a indispensável "noite passiva dos sentidos". O Divino Mestre e Redentor recolhe e subtrai o "gosto sensível e afetivo" da oração, para que a alma compreenda de uma vez por todas o seu próprio nada essencial, esmague vigorosamente sob os pés a sua ridícula presunção e o orgulho latente, e passe finalmente a procurar a Deus pelo que Ele é infinitamente em Si mesmo, e não pelos favores que Lhe pode dar.
Se a alma tiver a humildade profunda de não se rebelar e suportar nobremente este doloroso e árido teste de amor despido de recompensas sensíveis, amparando-se na escuridão nua e crua da fé teologal infusa e numa santa e resoluta aversão a todo o seu egoísmo latente, ela realizará com êxito a sua ansiada segunda conversão. Esse evento interior assinalará o seu abençoado ingresso formal na "via iluminativa" e na intimidade superior dos amigos e filhos de Deus. Se, no entanto, a alma retroceder medrosamente para as falsas consolações das criaturas e para o comodismo espiritual estéril, aplicar-se-lhe-á fatalmente o severo mas justíssimo adágio patrístico: "Nas coisas de Deus, quem não avança e não se esforça heroicamente por progredir, começa irremediavelmente a retroceder."
Aquele que negligencia o chamado imperioso da graça e rejeita abertamente a dor intrínseca desta conversão necessária e benfazeja converte-se, assim, na trágica figura do "anão espiritual". Permanece aprisionado pelas correntes do seu egoísmo estéril e infantilizado. O objetivo da segunda conversão, que consiste em passar firmemente do temor puramente servil e do amor egoísta e mercenário para o verdadeiro e autêntico amor filial e gratuito de Deus, é o pré-requisito indispensável para que Deus possa comunicar e confidenciar a esta alma desprendida os Seus altíssimos segredos divinos através do dom inefável da contemplação sobrenatural infusa.
A transição da infância espiritual para a adolescência exigiu a segunda conversão (a purificação passiva dos sentidos), conduzindo o cristão à via iluminativa. De modo análogo, a passagem da via iluminativa para a excelsa "via unitiva" – o estado próprio dos perfeitos – exige uma terceira conversão. Esta última conversão é uma verdadeira transformação radical da alma, descrita minuciosamente por São João da Cruz como a temível mas gloriosa "noite passiva do espírito".
Assim como a segunda conversão encontrou o seu paradigma evangélico na dolorosa contrição do Apóstolo São Pedro após o seu tríplice renegamento durante a Paixão, a terceira conversão encontra o seu modelo supremo no evento estupendo de Pentecostes. Apesar da contrição sincera de Pedro e da efusão do perdão de Cristo ressuscitado, os Apóstolos ainda demonstravam notáveis imperfeições. Eram lentos para crer na Ressurreição e precipitados, como evidencia o livro dos Atos dos Apóstolos, na sua ânsia terrena e política por uma restauração puramente temporal do reino de Israel.
A formidável transformação dos Apóstolos foi severamente preparada pela provação da dor. Quando Jesus ascendeu aos céus e os privou definitivamente da consolação inefável da Sua presença física e sensível, instalou-se neles uma profunda desolação interior, uma sensação de deserto e escuridão de espírito. Esta provação excruciante foi o prenúncio da graça transformadora.
No dia de Pentecostes, sob a forma simbólica de um vento impetuoso e de línguas de fogo, o Espírito Santo desceu sobre a Igreja nascente. O fogo, que purifica, ilumina e abrasa, simboliza com perfeição a tríplice ação do Paráclito naquela "noite do espírito": Ele purificou a alma dos Apóstolos até às suas raízes mais íntimas, iluminou os seus entendimentos obscurecidos e inflamou definitivamente as suas vontades com o fogo insaciável da caridade divina.
Os efeitos imediatos desta terceira conversão apostólica foram maravilhosos. Primeiramente, os Apóstolos foram subitamente iluminados. Homens rudes e de vistas curtas, que antes temiam a Cruz e não compreendiam as Escrituras, receberam a plenitude da contemplação infusa do profundo mistério da Encarnação redentora. Pedro, que havia recuado de pavor diante da mera predição do Calvário, pregava agora às multidões com uma autoridade divinal sobre o desígnio insondável da divina Providência, sobre o valor infinito e expiatório do preciosíssimo sangue derramado pelo Cordeiro sem mancha, e sobre o triunfo incontrastável da glória de Cristo.
Em segundo lugar, eles foram divinamente fortificados. O dom da fortaleza substituiu as suas antigas hesitações medrosas. Transformaram-se em mártires jubilosos, enfrentando flagelações, o Sinédrio, prisões, o ódio do mundo e a própria morte violenta, confessando com alegria e inabalável coragem o nome de Jesus Cristo.
Por fim, esta conversão pessoal irrompeu num formidável poder de influência santificadora. A Igreja nascente, descrita nos Atos dos Apóstolos, vivia numa admirável caridade fraternal: possuíam todos um só coração e uma só alma, perseverando heroicamente nas orações, na fração do pão Eucarístico e na comunhão dos bens. Esta maravilhosa efusão do Espírito Santo não foi, contudo, um evento isolado no passado: Ele continua a santificar a Sua Igreja através dos séculos, chamando os cristãos de hoje a encarnarem essa mesma caridade invencível e essa santidade luminosa.
A imperiosa necessidade desta terceira conversão interior impõe-se a todos os fiéis que avançam sinceramente na via de Deus. Embora os "proficientes" – aqueles que estão na via iluminativa – já tenham tido a sua sensibilidade purificada de inumeráveis defeitos grosseiros (como a sensualidade espiritual, a inveja rasteira, a preguiça e a impaciência mais descarada), subsiste ainda, enraizada nas profundezas impalpáveis do seu intelecto e da sua vontade, uma perigosa "ferrugem" do homem velho. Essa nódoa espiritual crônica só poderá ser cabalmente eliminada mediante a intervenção de um fogo purificador intensíssimo.
Esses defeitos latentes são de ordem estritamente espiritual e, por isso mesmo, muito mais sutis e perigosos. Trata-se, frequentemente, de apegos inconfessados a si próprio, que impedem a união livre e transformadora com a Essência divina. Tais almas padecem frequentemente de distrações teimosas na oração profunda, de incompreensões sistemáticas diante dos mistérios divinos mais puros e de derramamentos levianos do espírito em afetos naturais pouco impregnados da genuína caridade sobrenatural.
Contudo, o obstáculo mais insidioso é, de longe, o orgulho espiritual e intelectual. Muitas almas avançadas, cegas pelo amor-próprio sutilizado, agarram-se tenazmente às suas visões espirituais particulares, iludindo-se com pretensas "inspirações celestes" que não passam de fantasias da sua imaginação ou, pior ainda, de maquinações do inimigo infernal. Inflamadas de inútil vanglória, resvalam facilmente para a presunção, para a secreta ambição espiritual, julgando os outros com severidade farisaica e desviando-se tristemente do caminho real da cruz. Os mesmos sete vícios capitais, antes combatidos na esfera puramente sensitiva, reaparecem agora incrustados subtilmente na vida superior do intelecto e da vontade.
Para sanar este mal endêmico, explica o místico São João da Cruz, faz-se absolutamente indispensável aplicar o que ele designa como uma "forte barrela" (lexívia), ou seja, a purificação passiva do espírito. Esta nova intervenção retira as almas do seu infantilismo espiritual – das suas conceções "pueris" e estreitas acerca da divindade – e as introduz finalmente na maturidade plena, permitindo-lhes agir movidas muito mais pela moção direta de Deus do que pela sua débil atividade humana.
O método providencial de Deus para operar esta derradeira purificação parece, à primeira vista, consistir num impiedoso despojamento. A fim de curar definitivamente a alma do seu terrível orgulho intelectual e manifestar-lhe a medonha profundidade da sua miséria fontal, Deus encobre propositadamente o seu divino rosto. Lança o entendimento humano nas espessas trevas da ignorância sentida e submerge a vontade numa profunda aridez amorosa, permitindo mesmo o assalto de angústias desoladoras.
A alma vê-se forçada a caminhar às apalpadelas, apoiando-se exclusiva e cegamente na nudez da virtude teologal da pura "fé" que, aos olhos das faculdades naturais, é uma noite tenebrosa. É a escuridão do "Não visto". Privada das consolações fáceis, a alma não tem outra escolha senão entregar-se com absoluta "fidelidade e abandono" à ação invisível e desconcertante de Deus.
Porém, sob o denso véu desta dolorosíssima noite interior, o Espírito Santo, através do Seu potentíssimo "dom de entendimento", vai derramando em segredo a altíssima contemplação infusa. Deus ilumina a alma sem que ela se dê conta, purificando-a inteiramente das suas ignorâncias seculares e das suas imperfeições habituais inveteradas.
Neste crisol terrível, a soberba cede o seu lugar à verdadeira, abissal e inabalável humildade. As almas aprendem não apenas a tolerar o desprezo humano ou a humilhação providencial, mas, a exemplo heroico de um São Domingos ou de um São Paulo da Cruz, chegam ao ponto cume de se alegrarem sinceramente nas tribulações injustas por as tornarem mais semelhantes e conformes ao divino Redentor vituperado. As três virtudes teologais são cristalizadas na sua forma mais puríssima, desembaraçadas por completo dos frouxos motivos humanos secundários. A Suprema Verdade reveladora, a Misericórdia incessantemente auxiliadora e a Soberana Bondade infinitamente amável passam a brilhar, solitárias e soberanas, como estrelas resplandecentes de primeira grandeza, guiando o viajor esgotado mas invencível na noite do espírito.
Os preciosos frutos recolhidos no término fecundo desta terceira e última conversão são perfeitamente análogos àqueles colhidos no abençoado Pentecostes: a alma exibe uma profunda humildade existencial; adquire uma fé luminosa, aguda e extremamente penetrante, capaz de saborear experimentalmente e sem palavras os inefáveis mistérios trinitários e do mundo vindouro; abraça uma esperança audaz que "espera contra toda a esperança", ancorada unicamente na inabalável fidelidade divina; e inflama-se de um amor puro, acrisolado, incandescente e imperturbável a Deus. Este amor fortíssimo não se acovarda perante nenhuma persiguição secular ou adversidade terrena, saciando a sua sede insaciável na contemplação amorosa e tranquila.
Desta feita, o fundo inexplorado da alma passa a pertencer inteiramente, sem divisões, a Deus. A criatura humana é transfigurada, no santuário da sua alma imortal, numa verdadeira adoradora "em espírito e em verdade", unida de forma indestrutível e inamissível ao Esposo Divino, experimentando as inauditas antecipações do próprio gozo da eternidade.
Um dos debates cruciais na teologia espiritual contemporânea, mas de inegável importância prática, reside na correta interpretação da clássica divisão das três vias da vida interior: purgativa (principiantes), iluminativa (proficientes) e unitiva (perfeitos). Historicamente, delinearam-se duas correntes principais: a escola tradicional, alicerçada em São Tomás de Aquino e em São João da Cruz, e uma escola mais recente, cristalizada a partir do século XVIII com o jesuíta João Batista Scaramelli.
A escola tradicional, exposta brilhantemente pelo dominicano Tomás de Vallgornera e pelo carmelita Filipe da Santíssima Trindade, defende a profunda unidade e o crescimento orgânico da vida espiritual. Para eles, a "contemplação infusa" dos mistérios divinos, longe de ser um luxo ou um privilégio extraordinário (como o são as visões e revelações privadas), pertence de jure ao desenvolvimento normal, pleno e maduro da graça santificante no cristão. Consideram as noites passivas dos sentidos e do espírito – descritas por São João da Cruz – como as indispensáveis e dolorosas pontes de transição (as segunda e terceira conversões, respetivamente) entre as três idades espirituais.
Em contraste brutal com esta rica tradição, Scaramelli optou por dividir e separar rigidamente a teologia em dois compartimentos isolados: um "Diretório Ascético" e um "Diretório Místico". No seu esquema restritivo, as vias iluminativa e unitiva são explicadas quase exaustivamente no plano puramente "ascético", reduzidas ao exercício laborioso e ativo das virtudes morais e teologais, desvinculadas por completo da indispensável ação superior dos dons do Espírito Santo e da contemplação infusa passiva. A mística, por sua vez, é relegada a uma via perfeitamente extraordinária e opcional.
Ora, esta severa amputação introduzida pelos modernos acarreta graves perigos. Ela diminui e esvazia a verdadeira grandeza da "perfeição evangélica" ao privá-la da intimidade transformante com o Divino Hóspede; enfraquece o fôlego da abnegação ao não lhe apresentar o seu fim último e purificador; desampara as almas desoladas e tímidas perante a inelutabilidade das dolorosas aridezes das noites passivas; e, acima de tudo, ignora o apelo universal de Cristo à santidade plena. Na prática, querer atingir a via unitiva ensinada nos Evangelhos contando apenas com o esforço ascético e sem a ação passiva, infusa e passiva do Espírito Santo – como bem notou Santa Teresa de Ávila – é uma pura e triste quimera. A perfeição e a santidade são invariavelmente, no seu ápice, de caráter eminentemente místico.
Para salvaguardar a unidade majestosa da ascensão da alma em conformidade com as Escrituras e com a Tradição, devemos recuperar a antiga doutrina dos três grandes patamares da vida da graça, percebendo como a "crise" purificadora marca invariavelmente a passagem de um a outro, assim como a puberdade marca o doloroso adeus à infância corpórea.
A vida espiritual enceta-se gloriosamente com a justificação do pecador – o que chamamos de "primeira conversão" –, através do Batismo ou da contrição dolorosa unida ao sacramento da Penitência. Após este doloroso desprendimento das ataduras do mundo e das falácias do pecado, a alma introduz-se firmemente na "via purgativa".
O labor constante desta idade incipiente consiste em lutar denodadamente para não pecar gravemente e evitar todo o pecado venial deliberado. O principiante avança conhecendo gradativamente a sua extrema indigência através de rigorosos exames de consciência e descobrindo timidamente as maravilhas da majestade e bondade de Deus refletidas primordialmente no espelho nítido das criaturas sensíveis, na ordem da natureza ou nas belíssimas parábolas de Cristo.
Após a generosidade do seu combate ascético inicial, Deus costuma brindar a sensibilidade e os afetos do principiante com agradáveis consolações na oração. Porém, movido por uma secreta fraqueza infantil, ele invariavelmente apega-se desordenadamente a essas "doçuras". Transforma egoisticamente o meio em fim, escorregando subtilmente para os resquícios subtis da soberba, da "gula espiritual" e do torpor de uma inconfessável autossuficiência.
É precisamente neste ponto crítico e fatal que Deus intervém providencialmente com a "Noite Passiva dos Sentidos" (a segunda conversão). Priva a alma daquele mel sensível e lança-a numa secura dolorosa. Se ela for verdadeiramente humilde e generosa na sua árida persistência, sairá vitoriosa e transitará triunfalmente para uma vida superior; se não for, paralisar-se-á lastimavelmente na perniciosa categoria de "alma atrasada e tíbia".
As almas que suportaram com galhardia os tormentos purificadores da aridez da noite dos sentidos tornam-se formalmente os "avançados" ou proficientes. Elas transitam para a resplandecente "via iluminativa", onde lhes é concedida, ainda de modo embrionário, a graça sublime da "contemplação infusa".
A sua mentalidade espiritual alarga-se espantosamente. Já não buscam ver o Senhor meramente no esplendor das estrelas ou nas flores dos campos, mas mergulham antes de corpo e alma nas entranhas salvíficas dos grandes "mistérios do Salvador": a Encarnação abissal, a infância amável, a ignominiosa Paixão e o inigualável triunfo da Ressurreição gloriosa. Iluminados particularmente pelo "dom de ciência" do Espírito Santo, começam a compreender a loucura e a inefável sublimidade da misericórdia de Cristo.
Como consequência deste altíssimo conhecimento, já não se limitam puramente a esquivar-se do abismo do pecado. Sentem a necessidade visceral de arremedar proativamente todas as virtudes de Cristo: a Sua imaculada pureza, a Sua doçura e mansidão perante os algozes, a Sua obediência e o Seu insaciável zelo pelas almas e cumprimento dos conselhos evangélicos. O seu labor apostólico ganha ímpeto, fluidez e eficácia.
Todavia, paradoxalmente, as próprias consolações espirituais da sua pregação entusiasmada e do seu zelo infatigável ocultam um novíssimo perigo. Tomados, novamente, por um orgulho intelectual quase impalpável, começam furtivamente a glorificar-se a si mesmos nos brilhantes resultados dos seus afazeres e do seu apostolado. Iludem-se de que agradam a Deus porque são exteriormente mui produtivos, ignorando o silêncio trágico que, às vezes, cresce no fundo oculto das suas almas divididas. Para os purificar definitivamente destas sutis gangrenas e introduzi-los cabalmente na excelsa via da intimidade nupcial com a Majestade de Deus, uma terceira conversão afigura-se inadiável e iminente: a implacável Noite do Espírito.
Para ingressar na idade adulta da vida espiritual – a via unitiva dos perfeitos – a alma avançada tem de atravessar a mais temível e purificadora de todas as crises: a noite passiva do espírito, ou terceira conversão. Esta crise, magistralmente dissecada por São João da Cruz, não se resume a uma mera privação de consolações sensíveis, mas assume proporções de uma verdadeira "morte mística", a aniquilação completa do "homem velho".
Nesta terrível aridez espiritual, a alma vê-se brutalmente despojada não apenas dos gostos afetivos, mas das suas mais fulgurantes luzes intelectuais sobre os mistérios da salvação. Os ardentes desejos que antes a impulsionavam fenecem; a fluidez e o encanto com que orava, pregava ou organizava obras apostólicas desaparecem, dando lugar a uma sensação de esterilidade. Mais do que isso, a provação amiúde materializa-se em furiosos ataques e contradições exteriores: o apóstolo enfrenta calúnias e a ingratidão desconcertante daqueles a quem mais ajudou. Deus permite este amargo cálice para erradicar o amor-próprio sutil que se escondia nas boas obras, obrigando a alma a amar os outros unicamente por Deus.
Para além das perseguições exteriores, surgem assustadoras tentações interiores, não mais contra a sensualidade, mas contra as virtudes superiores da parte mais nobre do espírito: a fé, a esperança e até a própria caridade para com Deus, que, no meio do abismo da provação, parece ter-se tornado um tirano implacável. No entanto, o fogo purificador do amor divino está apenas a consumir a "lenha" húmida das imperfeições humanas, preparando-a para se transformar em pura chama. Quem persevera heroicamente, armado de um "abandono perfeito" e esperando contra toda a esperança, sai deste crisol apto a amar a Deus, finalmente, "com todo o seu espírito e entendimento".
A alma que suporta e vence esta última purificação emerge num estado inefável: o dos "perfeitos", caracterizado por um conhecimento de Deus quase experimental e virtualmente ininterrupto. Diferente do incipiente – que invariavelmente orbita em torno do seu próprio ego – e do proficiente – cujo olhar oscila –, o perfeito tem a mente e o coração constantemente ancorados na glória de Deus e na salvação das almas.
A sua contemplação adquire um caráter "circular", assemelhando-se ao voo altaneiro da águia que plana majestosa, descrevendo amplas órbitas em torno de um mesmo eixo luminoso. Através do dom de Sabedoria do Espírito Santo, o perfeito já não necessita de se apoiar exaustivamente em imagens, raciocínios e até mesmo na consideração isolada dos mistérios da vida de Cristo; ele contempla agora a própria Bondade divina na nudez e na penumbra sagrada da fé teologal infusa.
Liberto da "ferrugem" da ambição e dos apegos, ele ama o Senhor não apenas temendo ofendê-Lo ou tentando imitar as Suas virtudes operosamente, mas "aderindo" e fruindo diretamente d'Ele. Encontra-se irrevogavelmente pacificado. Esta união santificante produz a "paz de Deus que ultrapassa todo o entendimento", transformando a alma numa fornalha viva de zelo apostólico incandescente, mas agora revestido de uma inalterável mansidão e paciência divina. Como ensinou Santa Catarina de Sena, o seu coração submerge-se no oceano pacífico da Trindade.
A alma ferida e curada por esse amor expele chispas de divindade; os seus atos já não são propriamente seus, mas do próprio Espírito Santo que nela habita e opera. Esta altíssima e sublime "união transformante" não é, sublinhe-se novamente contra as opiniões redutoras de alguns autores modernos, um apêndice extraordinário acessível a uns escassos privilegiados. É, sim, o desenvolvimento pleno, maduro e absolutamente normal do gérmen da graça santificante semeado no santo Batismo. A teologia católica tradicional assegura-nos que a contemplação infusa e esta paz suprema do reinado de Deus não são favores caprichosos, mas constituem o apelo vocacional remoto e genuíno de todas as almas que seguem generosamente o caminho da cruz até ao fim, experimentando já nesta terra um inebriante prelúdio e antecipação da vida gloriosa do Céu.